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Bordados medievais da Tapeçaria de Bayeux

O rei Eduardo, o Confessor, recebe Harold Godwinson em seu palacio, cena inicial da Tapecaria de Bayeux
O rei Eduardo, o Confessor, recebe Harold Godwinson em seu palácio, no início da narrativa bordada. Foto: Myrabella / Wikimedia Commons (domínio público).

Em setembro de 2026, uma peça de linho e lã com quase mil anos deixou a Normandia rumo a Londres. Pela primeira vez desde que foi produzida, no século XI, a Tapeçaria de Bayeux está em solo inglês, emprestada ao British Museum em um acordo histórico entre França e Reino Unido. O empréstimo, que deve durar até julho de 2027, reacendeu o interesse mundial por essa peça, que muitos consideram o documento visual mais completo que restou da Europa medieval.

Chamada de tapeçaria por tradição, ela é, tecnicamente, um bordado: fios de lã coloridos costurados sobre um tecido de linho, e não fios entrelaçados em um tear. Essa distinção técnica é só o começo de uma história cheia de detalhes que poucos conhecem, e que ajuda a explicar por que essa peça continua fascinando historiadores, artistas e curiosos quase mil anos depois de ter sido criada.

Uma peça de dimensões impressionantes

A Tapeçaria de Bayeux mede quase 70 metros de comprimento por apenas 50 centímetros de altura, o que a torna, na prática, uma faixa estreitíssima e extremamente longa. Ela foi costurada em nove painéis de linho unidos entre si, formando uma superfície contínua que narra uma sequência de acontecimentos como se fosse uma história em quadrinhos medieval, lida da esquerda para a direita.

Para dar cor à narrativa, os artesãos usaram fios de lã em dez tonalidades diferentes, obtidas a partir de apenas três corantes vegetais. O pastel (uma planta também chamada de urzela ou woad) produzia os tons de azul. A garança, uma raiz muito usada na tinturaria medieval, gerava toda a gama de vermelhos, rosas, laranjas e marrons. Já a gualda, conhecida como erva-dos-tintureiros, era responsável pelos amarelos. Com apenas essas três fontes, os artesãos conseguiram criar uma paleta surpreendentemente variada, embora parte dos tons de azul tenha desbotado ao longo dos séculos, já que esse pigmento específico não penetrava bem nas fibras.

A técnica de costura também merece atenção. Foram usados quatro tipos de ponto: o ponto haste, o ponto corrente, o ponto de fenda (feito com dois fios simultâneos) e um ponto de preenchimento chamado de ponto de acordoamento, que ficou tão associado a essa obra que hoje é conhecido internacionalmente como ponto de Bayeux. Esse último ponto permitia cobrir grandes áreas coloridas de forma rápida e uniforme, algo essencial em uma obra de proporções tão grandes.

Um retrato minucioso da vida no século XI

Um dos aspectos mais ricos da Tapeçaria de Bayeux é a quantidade de informação visual que ela guarda sobre o cotidiano medieval. Ao todo, a peça reúne cerca de 620 figuras humanas (só três delas são mulheres, segundo o British Museum), perto de mil animais, mais de 400 plantas, 41 embarcações e 37 construções, entre castelos, igrejas e casas. As contagens variam um pouco de autor para autor, porque algumas figuras estão danificadas ou foram restauradas no século XIX. Esses números fazem dela uma das fontes iconográficas mais completas que existem sobre roupas, arquitetura, embarcações, agricultura e hábitos alimentares daquele período.

As margens superior e inferior do bordado, que muitas vezes passam despercebidas, são especialmente ricas. Nelas aparecem cenas de caça, fábulas de Esopo, criaturas fantásticas e até episódios de trabalho rural, como colheita e cozimento de alimentos. Alguns historiadores acreditam que essas bordas não são apenas decorativas: em certos trechos, elas parecem comentar ou até antecipar o que está acontecendo na faixa central da narrativa.

A história contada pela tapeçaria

A narrativa começa com o nobre inglês Harold Godwinson viajando ao continente, aparentemente a pedido do rei Eduardo, o Confessor. Uma tempestade o leva à costa de Ponthieu, onde é retido pelo conde local antes de ser levado ao duque Guilherme da Normandia. Ali, em uma das cenas mais comentadas da obra, Harold faz um juramento sobre relíquias sagradas, um gesto que os normandos entenderiam depois como uma promessa de apoiar a candidatura de Guilherme ao trono inglês.

Harold jura fidelidade sobre reliquias sagradas perante Guilherme da Normandia
Harold faz um juramento sobre relíquias sagradas perante Guilherme, duque da Normandia. Foto: Myrabella / Wikimedia Commons (domínio público).

Pouco depois, o rei Eduardo morre, no início de 1066, e Harold é coroado rei da Inglaterra. É nesse momento que a tapeçaria apresenta uma de suas cenas mais fascinantes: o aparecimento do cometa Halley no céu, retratado como um mau presságio logo após a coroação, com pequenas embarcações fantasmagóricas bordadas logo abaixo dele, sugerindo que algo grave estava por vir. Curiosamente, o cometa só foi avistado de verdade em abril daquele ano, meses depois da coroação, o que mostra como os autores da obra reorganizaram a cronologia para reforçar o efeito dramático da narrativa.

Homens observam o cometa Halley no ceu, retratado como mau presságio na Tapecaria de Bayeux
O cometa Halley surge no céu logo após a coroação de Harold, um presságio bordado na tapeçaria. Foto: Myrabella / Wikimedia Commons (domínio público).
Harold e coroado rei dos ingleses ao lado do arcebispo Stigand na Tapecaria de Bayeux
Harold é coroado rei dos ingleses, com o arcebispo Stigand ao seu lado. Foto: Ulrich Harsh / Wikimedia Commons (domínio público).

A partir daí, o bordado mostra Guilherme organizando a construção de uma frota inteira de embarcações, com cenas detalhadas de árvores sendo cortadas e transformadas em navios. Segue-se a travessia do canal da Mancha, com cavalos e suprimentos sendo transportados junto com os homens, e o desembarque na costa inglesa, perto de Pevensey. Há ainda uma cena de grande valor histórico mostrando o preparo de uma refeição coletiva, com direito a carnes assadas em espetos, o que oferece um raro vislumbre da alimentação da época.

Guilherme ordena a construcao de navios na Tapecaria de Bayeux
Guilherme ordena a construção de uma frota de navios para a travessia do canal da Mancha. Foto: Ulrich Harsh / Wikimedia Commons (domínio público).
Cena da Tapecaria de Bayeux mostrando o banquete com o bispo Odo abencoando a comida e a bebida
O bispo Odo abençoa a comida e a bebida antes da refeição coletiva. Foto: autor desconhecido / Wikimedia Commons (domínio público).

O restante da tapeçaria narra o desfecho da disputa pelo trono inglês, que culminou próximo à localidade de Hastings, no fim de 1066, e resultou na ascensão de Guilherme como novo governante da Inglaterra. A peça termina de forma abrupta e incompleta: os últimos centímetros de linho se perderam ao longo dos séculos, e muitos historiadores acreditam que a cena final, provavelmente mostrando a coroação de Guilherme em Westminster, simplesmente desapareceu com o tempo.

Quem encomendou e quem bordou

Apesar de toda a atenção que recebe, a Tapeçaria de Bayeux guarda mistérios que nunca foram totalmente resolvidos. O consenso entre os historiadores é que a obra foi encomendada pelo bispo Odo de Bayeux, meio-irmão de Guilherme, que aparece representado com destaque em diversas cenas, sempre em posição de prestígio. Acredita-se que a produção tenha ocorrido na Inglaterra, provavelmente na região de Canterbury, entre os anos de 1070 e 1077, e não na França, como o nome sugere.

A identidade de quem efetivamente bordou a peça permanece desconhecida. A tradição popular francesa por muito tempo atribuiu o trabalho à rainha Matilde, esposa de Guilherme, e por isso a obra ainda é chamada, na França, de Tapeçaria da Rainha Matilde. Os historiadores modernos, no entanto, acreditam que ela foi produzida por um grupo de bordadeiras inglesas anônimas, cuja habilidade com agulha e linha já era reconhecida e admirada em toda a Europa naquela época.

Outro enigma famoso é o de Aelfgyva, uma mulher retratada em uma cena isolada, tocada por um clérigo em um gesto cujo significado nunca foi esclarecido. Nenhuma legenda bordada explica quem ela é ou por que aparece ali, e até hoje pesquisadores debatem hipóteses sobre sua identidade e o real propósito daquela passagem.

Quase perdida ao longo dos séculos

A sobrevivência da Tapeçaria de Bayeux por quase mil anos é, em si, notável. Por séculos, a peça foi guardada e exibida apenas uma vez ao ano na catedral de Bayeux, o que provavelmente ajudou a preservá-la da luz e do manuseio constante. Mas ela também esteve perto de desaparecer mais de uma vez.

Durante os anos turbulentos da Revolução Francesa, no final do século XVIII, em 1792, a peça foi requisitada para servir de lona de cobertura de uma carroça e só escapou porque um advogado da cidade a retirou e a guardou em casa. Alguns anos depois, em 1803, Napoleão Bonaparte mandou exibi-la em Paris, usando a narrativa de uma travessia bem-sucedida entre o continente e a Inglaterra séculos antes como símbolo de inspiração para seus próprios planos em relação ao território inglês.

Linha do tempo da Tapeçaria de Bayeux: 1066; bordada entre cerca de 1070 e 1077; primeiro registro escrito em 1476; salva em 1792; exibida em Paris em 1803 e 1804; museu atual desde 1983; Memória do Mundo em 2007; British Museum de setembro de 2026 a julho de 2027; volta prevista a Bayeux em 2027.
Os principais momentos da tapeçaria, do século XI ao empréstimo a Londres. Infográfico: lunova3.

Onde ver a tapeçaria hoje

Em condições normais, a Tapeçaria de Bayeux fica exposta no Museu da Tapeçaria de Bayeux (Musée de la Tapisserie), na Normandia, na França, onde é a principal atração da cidade que lhe dá nome. Em reconhecimento à sua importância histórica, a obra integra, desde 2007, o registro Memória do Mundo da UNESCO, que reúne documentos considerados de valor excepcional para a humanidade.

Neste momento, no entanto, ela pode ser vista em Londres: o empréstimo ao British Museum, que começou em 10 de setembro de 2026 e segue até 11 de julho de 2027, marca a primeira vez, em quase 950 anos, que a peça retorna ao solo inglês, justamente o território cuja história ela ajudou a registrar. Enquanto isso, o museu de Bayeux passa por obras de renovação, e a peça deve retornar à Normandia assim que a exposição em Londres for encerrada.

Por que essa peça continua importando

A Tapeçaria de Bayeux é propaganda normanda, e é preciso lê-la assim: conta a história do ponto de vista dos normandos. Mesmo assim, registra roupas, embarcações, técnicas agrícolas, hábitos alimentares e até crenças populares de uma época da qual sobreviveram poucos registros visuais tão detalhados. Para quem vai a Londres entre setembro de 2026 e julho de 2027, a exposição no British Museum (sala 30) é a chance de ver a peça sem ir à Normandia. A tapeçaria fica exposta na horizontal, a 80 cm de altura, então vale reservar tempo para percorrer os quase 70 metros com calma e reparar nas margens, onde estão muitos dos detalhes descritos acima. Quem preferir esperar, pode vê-la de volta em Bayeux depois da reabertura do museu, prevista para 2027.

É por isso que, quase um milênio depois de ter sido bordada, essa peça continua atravessando o canal da Mancha, agora não mais em navios de madeira, mas em uma vitrine climatizada, para ser admirada por uma nova geração de visitantes.

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Fontes

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