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Biblioteca Joanina e seu acervo barroco em Coimbra

A subida pela Rua Larga, no ponto mais alto de Coimbra, termina num pátio de pedra emoldurado por edifícios de diferentes séculos: o Paço das Escolas, núcleo mais antigo da Universidade de Coimbra. Ali, atrás de uma porta de teca que isola o interior do calor e do ruído da cidade, fica a Biblioteca Joanina. O edifício foi pensado como um cofre para livros: paredes grossas, poucas aberturas e temperatura estável, uma solução de conservação que funciona há quase três séculos.

Fachada da Biblioteca Joanina, na Universidade de Coimbra
A Biblioteca Joanina, na Universidade de Coimbra. Foto: Chris (Flickr), licenciada sob CC BY-SA 2.0.

O que é a Biblioteca Joanina

A Biblioteca Joanina é a biblioteca barroca da Universidade de Coimbra, universidade fundada em 1290 e uma das mais antigas da Europa. O edifício da biblioteca é do século XVIII. Batizada em homenagem a D. João V, que autorizou sua construção, reúne obras dos séculos XVI a XVIII sobre direito, teologia, medicina e ciências. Diferentemente de um museu que só expõe objetos, a Joanina segue com função ativa: parte do acervo raro ainda circula entre pesquisadores da universidade, sob controle estrito de conservação, enquanto os visitantes percorrem o espaço como testemunhas de um projeto pensado, desde o início, para impressionar quem o visse.

A história por trás do edifício

D. João V autorizou a construção em 31 de outubro de 1716, e a primeira pedra foi lançada em 17 de julho de 1717. A pedraria ficou pronta em 1722, mas a decoração interna, que incluía talha dourada, pinturas e mobiliário, só foi concluída em 1728. Ainda assim, os primeiros livros só chegaram ao edifício depois de 1750: quase três décadas separam a conclusão da obra da instalação efetiva do acervo, um detalhe que raramente aparece nos relatos mais rápidos sobre o local.

Não há registro seguro de quem assinou o projeto original. Historiadores apontam João Carvalho Ferreira como mestre de obras responsável pela execução, mas parte da bibliografia atribui a concepção do desenho ao escultor francês Claude de Laprade, então estabelecido em Lisboa, e essa autoria segue em aberto. Já o uso posterior do espaço é mais bem documentado: a Joanina funcionou como biblioteca de trabalho da universidade, com consulta direta ao acervo, de 1777 até meados do século XX, quando passou a ser tratada prioritariamente como patrimônio a preservar.

Interior da Biblioteca Joanina, com estantes de madeira e mesas de leitura
Uma das salas da Biblioteca Joanina, com as estantes de madeira e as mesas de leitura. Foto: Trishhhh (Flickr), licenciada sob CC BY 2.0.
Linha do tempo da Biblioteca Joanina, de 1290 a 2013
Da fundação da universidade, em 1290, ao reconhecimento da UNESCO, em 2013. Infográfico: lunova3.

Arquitetura e elementos que merecem atenção

O edifício tem formato de bloco vertical alongado, solução usada para vencer o desnível do terreno da universidade. As paredes externas, com 2,11 metros de espessura, somadas à porta de teca, isolam o interior das variações de temperatura da rua, recurso decisivo para a conservação do papel.

Por dentro, três salas se sucedem, ligadas por arcos ornamentados. Cada uma foi historicamente dedicada a um campo do saber: matemática e medicina, leis e cânones, artes e teologia, refletindo a estrutura do ensino universitário dos séculos XVI a XVIII. As estantes, em dois níveis, são de carvalho pintado e dourado, com motivos no estilo então chamado de chinesice, inspirados em padrões orientais. Seis mesas de leitura embutidas, em madeiras nobres, foram executadas entre 1725 e 1727 pelo marceneiro italiano Francesco Realdino.

Os tetos das três salas foram pintados por António Simões Ribeiro e Vicente Nunes, e no centro do conjunto está um retrato de D. João V, pintado em 1725 pelo italiano Domenico Duprà: a presença do próprio monarca, e não de um santo ou reitor, deixa clara a origem do projeto como empreendimento pessoal do rei. Sobre a porta de entrada, o brasão nacional reforça o caráter oficial do espaço.

O que observar durante a visita

Boa parte do efeito da Joanina vem de detalhes que só aparecem de perto. O acabamento que imita mármore nas colunas é, na verdade, madeira pintada, recurso comum no barroco português para simular materiais nobres sem o custo da pedra real. Nos tetos, figuras pintadas em perspectiva carregam mensagens alegóricas ligadas a conceitos da vida universitária, um programa iconográfico que exige tempo para ser lido, não apenas fotografado: fotos e vídeos são proibidos no piso nobre, justamente para proteger a decoração.

No piso intermédio, menos visitado, dá para ver marcas deixadas por canteiros nos arcos de pedra. O espaço já serviu para alojar guardas do cárcere acadêmico e guardar os livros de consulta mais frequente; hoje recebe exposições documentais. Poucos visitantes sabem que, sob o edifício, funciona justamente esse cárcere acadêmico, uma das prisões medievais mais bem preservadas de Portugal, com celas estreitas e escada em caracol, ampliado no século XVIII com celas comuns e sanitários, dentro das reformas pombalinas de 1772.

Teto pintado da Biblioteca Joanina, em Coimbra
O teto pintado de um dos salões da Biblioteca Joanina. Foto: PhR61 (Flickr), licenciada sob CC BY 2.0.

A relação da biblioteca com Coimbra

A Joanina integra o Paço das Escolas ao lado da Sala dos Capelos, da Capela de São Miguel e da Torre da Universidade, conjunto que a UNESCO reconheceu como Patrimônio Mundial em 2013, sob a designação Universidade de Coimbra, Alta e Sofia. O reconhecimento não celebra apenas a arquitetura de cada edifício isoladamente, mas a continuidade de mais de sete séculos de atividade acadêmica na cidade, desde a fundação da universidade, em 1290.

Essa continuidade é visível na paisagem: o conjunto universitário domina o topo da colina da Alta, e a Joanina, discreta por fora, concentra boa parte do valor simbólico que faz de Coimbra uma cidade organizada em torno do conhecimento.

Informações práticas para o visitante

O Paço das Escolas funciona diariamente das 9h às 19h30, com última entrada às 19h15; o acesso à Biblioteca Joanina fecha às 19h. A bilheteira, num quiosque no Largo da Porta Férrea, atende no mesmo horário, das 9h às 19h. Há opções de visita livre, com bilhete combinado que também dá acesso a outros espaços do Paço das Escolas e ao Museu da Ciência, e de visita guiada, mais curta e conduzida por um profissional de turismo.

Como os bilhetes costumam ser não reembolsáveis e a procura cresce entre junho e setembro, vale reservar com antecedência pelo site oficial da Universidade de Coimbra, onde estão os valores atualizados, que variam por categoria e temporada; por isso não convém tomar como definitivo um preço citado fora do canal oficial. Dentro da biblioteca, fotos e vídeos não são permitidos no piso nobre, flash é proibido nos demais ambientes, tripés e bastões de selfie não são autorizados, e menores de 18 anos precisam de acompanhante adulto.

Como incluir a visita em um roteiro histórico por Coimbra

Como o bilhete combinado cobre vários espaços do Paço das Escolas, vale reservar meia manhã ou uma tarde inteira ao conjunto, em vez de tratar a Joanina como parada isolada de poucos minutos. Chegar cedo ajuda a evitar a concentração de grupos, especialmente no piso nobre, onde o acesso é controlado por razões de conservação.

Faz sentido encaixar no mesmo bloco a Sala dos Capelos, a Capela de São Miguel e a subida à Torre da Universidade, de onde se vê o desenho da cidade que ajuda a entender por que a Alta de Coimbra recebeu o título de patrimônio mundial. Como o estacionamento na parte alta é limitado, transporte público ou uma caminhada a partir do centro histórico costumam ser as opções mais práticas.

Curiosidades

O número de volumes muda conforme a fonte: registros da própria universidade falam em cerca de 60 mil obras hoje reunidas na Joanina, enquanto outras estimativas, somando coleções relacionadas, chegam a 200 ou 250 mil. A diferença mostra como é fácil confundir o acervo da sala barroca com o conjunto mais amplo de fundos históricos da universidade.

A biblioteca mantém, até hoje, duas colônias de morcegos que ajudam a controlar insetos nocivos ao papel, prática registrada há mais de 250 anos: todas as noites os móveis e mesas de leitura são cobertos com panos de couro, e pela manhã a equipe remove os resíduos deixados pelos animais. A rotina convive com um projeto de digitalização em andamento, que busca preservar digitalmente as obras mais frágeis do acervo.

Antes de ir

Vale reter alguns dados práticos: o Paço das Escolas abre todos os dias das 9h às 19h30 (acesso à biblioteca até as 19h), com bilheteira no Largo da Porta Férrea; fotos e vídeos são proibidos no piso nobre e flash não é permitido nos demais ambientes. Entre junho e setembro a procura cresce bastante, então vale comprar o bilhete com antecedência pelo site oficial, já que costuma ser não reembolsável. E se alguém perguntar sobre os morcegos: sim, duas colônias ainda ajudam a proteger o acervo contra insetos, uma rotina de conservação que segue há mais de 250 anos.

Para transformar a leitura em roteiro, consulte o guia de Portugal e Espanha.

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Fontes

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