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Lendas populares guardadas por velhos burgos

Algumas lendas medievais não ficaram só nos livros. Elas viraram estátua na porta da cidade, peça de teatro aos domingos, nome de rua e até um cruzeiro de pedra guardado em museu. Em três lugares da Europa, a lenda é tão ligada ao espaço físico que dá para seguir a história a pé, parando nos pontos onde ela teria acontecido. E em todos eles existe algum registro antigo por trás do mito.

Hamelin, Alemanha: o flautista e as 130 crianças

A versão que ficou conhecida no mundo todo é a dos Irmãos Grimm: um flautista livra a cidade dos ratos, não recebe o pagamento combinado e, como vingança, leva as crianças embora tocando sua flauta. O curioso é que o registro mais antigo não fala de ratos. Uma inscrição e um antigo vitral da igreja do mercado, hoje perdido, registravam que em 26 de junho de 1284, dia dos santos João e Paulo, 130 crianças de Hamelin saíram da cidade atrás de um flautista e nunca voltaram. Os historiadores discutem até hoje o que pode ter acontecido. Entre as hipóteses estão uma migração de jovens para colonizar terras no leste da Europa, uma epidemia ou uma tragédia que a memória da cidade transformou em lenda. Os ratos só aparecem em versões do século XVI.

Fachada do Rattenfängerhaus, a Casa do Flautista, em Hameln
O Rattenfängerhaus, em Hameln, ponto de partida do circuito que lembra o desaparecimento registrado em 1284. Foto: Beckstet / Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

A cidade se organizou em torno da história. A Rattenfängerhaus, casa de 1602 com fachada renascentista, tem na parede uma inscrição sobre o desaparecimento. A rua lateral, a Bungelosenstraße (“rua sem tambores”), é onde, por tradição, não se toca música, nem em casamentos. Na Hochzeitshaus, o grande edifício renascentista do centro, um carrilhão com figuras mecânicas apresenta a lenda várias vezes ao dia. Aos domingos, do meio de maio ao meio de setembro, moradores encenam a história ao ar livre no terraço do mesmo prédio, ao meio-dia, com entrada gratuita. Em 2026, o espetáculo completou 70 anos.

Carrilhão com figuras do flautista na fachada da Hochzeitshaus de Hamelin
Foto: Axel Hindemith / Wikimedia Commons, Public domain

Como chegar: Hamelin fica a cerca de 45 minutos de trem regional de Hanôver. Hanôver tem conexões aéreas com os principais aeroportos europeus, e de Frankfurt chega-se de trem rápido em pouco mais de 2 horas.

Carcassonne, França: Dame Carcas e o porco atirado do alto da muralha

A Cité de Carcassonne, no sul da França, é uma cidade fortificada com 52 torres e duas linhas de muralhas, restaurada no século XIX pelo arquiteto Viollet-le-Duc. A lenda local conta que, no século VIII, a cidade estava isolada havia anos, sem receber mantimentos, por ordem de Carlos Magno. Os moradores estavam passando fome. A senhora da cidade, Dame Carcas, mandou alimentar o último porco com o último saco de trigo e jogá-lo do alto da muralha. Ao ver o animal gordo, os homens de Carlos Magno concluíram que a cidade ainda tinha comida de sobra e foram embora. Ela então mandou tocar os sinos, e daí viria o nome: “Carcas sonne”, “Carcas toca”.

Os historiadores consideram a explicação do nome uma invenção posterior, mas a lenda tem lugar marcado. Na entrada principal, a Porte Narbonnaise, um busto de pedra de Dame Carcas recebe quem chega.

Busto de Dame Carcas na Porte Narbonnaise, entrada da Cité de Carcassonne
Foto: Falk2 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Andar pelas ruas da Cité e pelo espaço entre as duas muralhas é gratuito. O ingresso para o castelo condal e o circuito sobre as muralhas custa de €13 a €19, conforme a época, e o audioguia sai por mais €5. Jovens europeus com menos de 26 anos não pagam. De novembro a março, a entrada é gratuita no primeiro domingo do mês. Como chegar: Carcassonne fica a cerca de 1 hora de trem de Toulouse, que tem conexões aéreas com Lisboa, Paris e Madri.

Essa história lembra a lenda da aldeia portuguesa de Monsanto, em que os moradores, isolados e sem comida, atiram um bezerro bem alimentado por cima das muralhas para enganar quem esperava do lado de fora. O mesmo tipo de truque aparece em várias lendas medievais da Europa.

Barcelos, Portugal: o galo que cantou depois de assado

O galo colorido vendido em todo canto de Portugal vem de uma lenda de Barcelos, no Minho. Um peregrino a caminho de Santiago de Compostela foi acusado de roubo e condenado à forca. Diante do juiz, que estava jantando, ele declarou que o galo assado na mesa cantaria para provar sua inocência. O galo se levantou e cantou, e o peregrino foi salvo.

A lenda tem um objeto concreto: o Cruzeiro do Senhor do Galo, uma cruz de pedra do século XIV com a cena esculpida, que segundo a tradição foi encomendada pelo próprio peregrino. Ele fica no Museu Arqueológico de Barcelos, ao ar livre, nas ruínas do Paço dos Condes, ao lado da ponte medieval sobre o rio Cávado. A entrada é gratuita.

Museu Arqueológico de Barcelos ao ar livre, nas ruínas do Paço dos Condes
Foto: Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTU / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Vale ir a Barcelos numa quinta-feira, dia da feira semanal, uma das mais antigas e maiores de Portugal, com cerâmica, galos pintados, artesanato e produtos da roça. Como chegar: o trem regional sai do Porto e chega a Barcelos em cerca de 1 hora. O Porto tem voos diretos do Brasil.

Se este texto despertou vontade de ir, o índice de guias por país traz roteiros, épocas e como chegar a partir do Brasil.

Fontes

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