
Ashford Castle, às margens do lago Corrib, no condado de Mayo. Foto: Yanshoof / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
Em Kilkea Castle, no condado de Kildare, a lenda diz que o fantasma do 11º Conde de Kildare ainda sai a cavalo a cada sete anos pelos campos ao redor da torre onde ele estudava astrologia — a mesma torre onde, hoje, hóspedes pagam para dormir. Essa mistura de história documentada, lenda local e hotel em funcionamento é comum nos castelos medievais da Irlanda e da Escócia: cinco deles, com origem que vai de 1180 a 1450, funcionam hoje como hospedagem, com diárias que variam de pouco mais de 80 libras a mais de 5 mil dólares por noite. A seguir, a história de cada um — incêndios, guerras, mudanças de dono — junto com a faixa de preço atual e o que esperar de uma estadia.
Kilkea Castle: 800 anos como fortaleza dos FitzGerald na Irlanda

Kilkea Castle, no condado de Kildare, um dos castelos habitados mais antigos da Irlanda. Foto: GsmithEIDW / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0.
Kilkea Castle, no condado de Kildare, foi construído em 1180 e é considerado um dos castelos habitados mais antigos da Irlanda. Serviu como fortaleza medieval dos FitzGerald, os Condes de Kildare, uma das famílias mais poderosas da Irlanda normanda, e reúne mais de 800 anos de história contínua na mesma linhagem.
O morador mais famoso do castelo é Gerald FitzGerald, o 11º Conde de Kildare, que viveu no século 16 e ficou conhecido como o Conde Feiticeiro por seu interesse em astrologia e alquimia. A lenda local conta que ele tinha uma sala de estudos na torre mais alta e que, a cada sete anos, seu fantasma reaparece montado em um cavalo branco, liderando cavaleiros fantasmas pelos campos ao redor do castelo. Hoje o edifício funciona como hotel, com quartos dentro da torre original e um campo de golfe nos terrenos ao redor.
Ashford Castle: da fortaleza normanda ao hotel mais luxuoso da Irlanda
Erguido em 1228 às margens do lago Corrib, no condado de Mayo, Ashford Castle começou como fortaleza da família anglo-normanda de Burgo. Em 1589 caiu nas mãos do oficial inglês Richard Bingham após uma batalha, e só passou a ter feição de residência nobre por volta de 1715, quando a família Browne construiu ali um pavilhão de caça no estilo de um castelo francês do século 17.
A transformação mais marcante veio em 1852, quando Sir Benjamin Guinness, da família cervejeira, comprou a propriedade e ampliou o terreno para mais de 10 mil hectares, com novas estradas e milhares de árvores plantadas. Seu filho, Arthur Guinness, Lord Ardilaun, seguiu ampliando o castelo em estilo neogótico, acrescentando as ameias que ainda hoje marcam a fachada. A família só vendeu a propriedade em 1939, quando ela virou hotel pela primeira vez. Hoje é administrado como hotel cinco estrelas, com diárias que variam de cerca de 674 a mais de 5.800 dólares, e mantém a mais antiga escola de falcoaria da Irlanda, com passeios guiados de falcão pelos 140 hectares de propriedade, além de tiro com arco, cavalgadas e caminhadas com os galgos irlandeses da casa.
Kinnitty Castle: incendiado na Guerra Civil Irlandesa e reconstruído em estilo gótico

Kinnitty Castle, no condado de Offaly, reconstruído em estilo neogótico após um incêndio em 1922. Foto: Mike Searle / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.
Kinnitty Castle, no condado de Offaly, foi erguido em 1630 pelo clã O’Carroll sobre o terreno de uma abadia ainda mais antiga, fundada no século 6. A propriedade passou para a família Bernard em 1764, que encomendou em 1833 uma reforma completa em estilo Tudor gótico, com torres octogonais, gárgulas e janelas em arco que definem a aparência do castelo até hoje.
Em 1922, durante a Guerra Civil Irlandesa, forças republicanas incendiaram o castelo, que ficou em ruínas até ser reconstruído em 1927 com uma verba do governo irlandês. Depois de décadas servindo como centro de treinamento florestal, virou hotel em 1994. O local é conhecido pela lenda do Monge de Kinnitty, um fantasma que hóspedes e funcionários dizem já ter visto pelos corredores, e por manter um bar montado dentro da antiga masmorra. Em baixa temporada, os quartos padrão custam entre 112 e 139 euros por noite, uma das opções mais em conta entre os castelos históricos da Irlanda.
Tulloch Castle, na Escócia: hospital de guerra e a lenda da Dama Verde

Tulloch Castle, em Dingwall, nas Terras Altas escocesas. Foto: Euan Nelson / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0.
Em Dingwall, nas Terras Altas escocesas, Tulloch Castle tem origem no final do século 14 e pertenceu à família Bain por gerações, até passar para os Davidson em 1762, que mantiveram a propriedade por mais de 150 anos. O castelo sofreu um incêndio em 1845 e foi ampliado em 1891, sempre mantendo a estrutura de torre original.
Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1940, o castelo funcionou como hospital para soldados feridos na evacuação de Dunquerque, e mais tarde serviu como alojamento estudantil até 1976, antes de ser reformado e reaberto como hotel em 1996. O retrato de Elizabeth Davidson, conhecida como a Dama Verde, fica pendurado no salão principal, e o fantasma seria uma das poucas aparições já registradas em fotografia, o que atrai caçadores de fenômenos paranormais ao local todos os anos. É também uma das diárias mais baixas entre os castelos históricos da Escócia, a partir de 81 libras por quarto.
Dalhousie Castle: muralhas do século 13 a poucos minutos de Edimburgo

Dalhousie Castle, perto de Edimburgo, com estrutura que data em boa parte de 1450. Foto: RHaworth / Wikimedia Commons, CC BY 2.5.
Dalhousie Castle, perto de Edimburgo, foi erguido originalmente no século 13, com boa parte da estrutura atual datando de 1450. O castelo tinha ponte levadiça sobre um fosso e uma masmorra acessível apenas por uma escada em espiral, hoje transformada em restaurante subterrâneo, o Dungeon Restaurant. Outro dos restaurantes da propriedade leva o nome de Ramsay, uma homenagem irônica a um dos fantasmas do local.
Duas assombrações são associadas ao castelo: Sir Alexander Ramsay, que teria morrido de fome em outro castelo em 1342 e ainda seria visto pelos corredores, e a Dama Cinzenta, Catherine, avistada perto das torres. Além da história, o hotel oferece falcoaria e tiro com arco no parque do castelo, spa próprio e fica a menos de 13 quilômetros de atrações como o Castelo de Edimburgo e a Capela de Rosslyn. As diárias começam por volta de 95 libras no quarto padrão e passam de 300 libras nas suítes com cama de dossel.
Quanto custa e como reservar uma noite em um castelo medieval
A faixa de preço entre os castelos é grande. Tulloch Castle e Kinnitty Castle ficam na casa dos 80 a 140 euros ou libras por noite em baixa temporada, Dalhousie Castle fica na faixa intermediária, entre 95 e 305 libras, e Ashford Castle representa o topo da escala, com diárias que passam de 5 mil dólares nas suítes mais altas. Na maioria desses hotéis, o café da manhã já está incluído na diária, mas o jantar e experiências como falcoaria ou spa costumam ser cobrados à parte.
Datas de casamento e lua de mel costumam lotar primeiro, já que boa parte desses castelos funciona também como salão de festas, às vezes em regime de uso exclusivo, quando o hóspede aluga o castelo inteiro por uma noite mínima de duas ou três diárias. Para quem só quer conhecer o interior sem se hospedar, castelos como Dalhousie e Ashford recebem visitantes para chá da tarde ou refeições no restaurante, mesmo sem reserva de quarto. Fora de alta temporada, sobretudo em dias de semana no inverno, é comum encontrar tarifas promocionais bem abaixo do preço de fim de semana.
Fantasmas e lendas: o que esperar de uma noite em um castelo assombrado
Histórias de fantasma fazem parte do apelo comercial de boa parte desses hotéis, que costumam manter os relatos de hóspedes documentados e até oferecer passeios guiados sobre as lendas locais. Isso não significa que a experiência seja assustadora, já que a maioria dos quartos foi modernizada com aquecimento, banheiro privativo e decoração de época, e as histórias funcionam mais como atração cultural do que como sobressalto real. Para quem viaja mais pelo gosto de arquitetura medieval do que pelas lendas, vale simplesmente perguntar na recepção se o quarto reservado fica em uma das áreas originais do século 13 ou 15, já que muitos desses castelos combinam alas antigas com construções bem mais recentes.
Resumo rápido antes de reservar
- Os quartos ficam na parte medieval? Depende do castelo: em Kilkea e Dalhousie, os quartos de torre ocupam a estrutura original em pedra; em Ashford, boa parte das acomodações fica em alas vitorianas mais recentes. Vale perguntar diretamente ao hotel antes de reservar.
- É preciso alugar o castelo inteiro? Não. A maioria aceita reserva de quarto avulso; o aluguel exclusivo é voltado a casamentos e grupos grandes, com estadia mínima de duas ou três noites.
- Dá para visitar sem se hospedar? Em Dalhousie e Ashford, sim: chá da tarde ou refeições no restaurante são abertos mesmo sem reserva de quarto, mas vale confirmar com antecedência.
- Qual a melhor época para preços mais baixos? Dias de semana no inverno, fora de dezembro. Julho, agosto e datas de casamento são os períodos mais caros e com menos disponibilidade.
O lunova3 é um projeto de pesquisa e curadoria sobre vilarejos, castelos e patrimônio histórico da Europa, mantido por Helena Nascimento. Os artigos são escritos a partir de fontes públicas: sites oficiais de turismo, instituições de patrimônio e referências enciclopédicas, sempre citadas ao final de cada texto, e revisados periodicamente para manter datas e informações atualizadas. O objetivo é ajudar quem está planejando uma viagem ou tem curiosidade por história e arquitetura europeias a conhecer destinos menos óbvios do continente.
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