Duas palavras que usamos todo dia nasceram em cidades de mercadores da Idade Média: “bolsa”, de bolsa de valores, vem de uma hospedaria de Bruges, na Bélgica, e “quarentena” vem de uma lei de Dubrovnik, na Croácia, de 1377. Uma terceira cidade, Troyes, na França, deu nome à onça troy, a unidade usada até hoje para pesar ouro. Completam a lista Bergen, na Noruega, e Gdańsk, na Polônia, portos da Liga Hanseática que guardam objetos raros desse comércio. Este guia responde de onde vem cada uma dessas heranças, onde vê-las hoje e quanto custa a visita em 2026.
Por que essas cinco cidades ficaram ricas na Idade Média?
Nos séculos XII e XIII, o comércio entre o norte da Europa (os tecidos de lã de Flandres) e o sul (as especiarias, a seda e os corantes trazidos pelos italianos) se encontrava por terra, nas feiras de Champagne, e Troyes era uma das cidades-sede. Depois, as rotas passaram para o mar. Bruges virou o grande mercado do noroeste europeu, Dubrovnik ligava o Ocidente ao Império Otomano, e Bergen e Gdańsk entraram na Liga Hanseática, a rede de cidades comerciais do Mar do Norte e do Báltico. Cada uma resolveu um problema prático do comércio, e algumas dessas soluções viraram palavras e regras que existem até hoje.
Por que o ouro é pesado em onça troy até hoje?
As feiras de Champagne se revezavam ao longo do ano entre quatro cidades, Lagny, Provins, Bar-sur-Aube e Troyes, e Troyes recebia duas: a “feira quente”, no verão, e a “feira fria”, no inverno. Os condes de Champagne garantiam proteção às caravanas, regras claras e tribunais para resolver disputas. Mercadores de vários reinos precisavam de pesos confiáveis, e o padrão usado em Troyes se espalhou e deu origem ao sistema troy, até hoje a referência do mercado internacional de ouro e prata. Das mesmas feiras vêm algumas das primeiras letras de câmbio, que permitiam fechar negócios sem carregar sacos de moedas pelas estradas.

O centro de Troyes tem o formato de uma rolha de champanhe e está cheio de casas de enxaimel dos séculos XVI e XVII, construídas depois de um grande incêndio em 1524. A Ruelle des Chats, um beco tão estreito que os telhados quase se encostam, é a rua mais fotografada. A Maison de l’Outil et de la Pensée Ouvrière reúne cerca de 12 mil ferramentas dos séculos XVII a XIX num palacete do século XVI, o Hôtel de Mauroy. O ingresso custa €8 (€4 para jovens de 12 a 18 anos), e o museu abre de terça a domingo. Troyes fica a cerca de 1h30 de trem de Paris (estação Paris-Est).

Para ver como era o cenário das feiras, a melhor cidade não é Troyes, e sim Provins, a cerca de 1h de carro. Ela é patrimônio da UNESCO desde 2001 como “cidade das feiras medievais”, com muralhas, a Tour César e galerias subterrâneas usadas como depósito pelos mercadores.

Por que a bolsa de valores se chama bolsa?
No fim do século XIII, os navios genoveses e venezianos passaram a contornar a Península Ibérica e subir direto até Flandres, o que esvaziou as feiras de Champagne. Bruges, ligada ao mar pelo braço do Zwin, virou o centro do comércio. Os mercadores estrangeiros se organizavam em “nações”, cada uma com casa própria na cidade: genoveses, florentinos, venezianos, castelhanos, portugueses e os alemães da Hansa.
Os negócios eram fechados numa pracinha em frente à hospedaria da família Van der Beurse, onde os mercadores italianos se encontravam. O nome da família virou sinônimo do lugar onde se negociavam mercadorias e papéis, e daí vêm bourse, em francês, Börse, em alemão, e “bolsa”, em português. O prédio, chamado Huis ter Beurze, continua de pé numa esquina perto da praça Jan van Eyck, e a visita é por fora, de graça.

No século XV, o Zwin assoreou, os navios grandes não chegavam mais a Bruges e o comércio se mudou para Antuérpia. Para ver onde ficava a saída para o mar, vá até Damme, o antigo porto avançado da cidade, a cerca de 7 km, num passeio plano de bicicleta ao longo do canal. Foi o empobrecimento que preservou o centro medieval de Bruges, hoje patrimônio da UNESCO.

De onde vem a palavra quarentena?

Entre 1358 e 1808, Dubrovnik foi a República de Ragusa, uma cidade-Estado que pagava tributo aos otomanos em troca de liberdade de comércio e mantinha consulados em dezenas de portos do Mediterrâneo. Um porto que recebia navios de toda parte também recebia a peste. Em 27 de julho de 1377, o Grande Conselho de Ragusa decretou que quem chegasse de áreas infectadas teria de passar 30 dias isolado nas ilhotas de Mrkan, Bobara e Supetar antes de entrar na cidade. É considerado o primeiro sistema de quarentena do mundo. O período se chamava trentino. Em 1397, foi ampliado para 40 dias, a quarantena, e daí vem a palavra que usamos.
A partir de 1590, a cidade construiu os Lazareti, pavilhões de isolamento junto ao porto, no bairro de Ploče, logo fora das muralhas. Os prédios continuam lá e hoje abrigam ateliês, um museu multimídia e shows, a poucos minutos a pé da porta de Ploče.
Na cidade murada, o porto antigo fica no lado leste, protegido pelo forte de São João, que abriga o Museu Marítimo. Dali saem os barcos para a ilha de Lokrum, a 10 a 15 minutos. O circuito de cerca de 1.940 metros sobre as muralhas leva de 1h30 a 2h. Em 2026, o ingresso custa €40 para adultos na temporada principal e €15 para crianças de 7 a 18 anos. O Dubrovnik Pass de 1 dia tem o mesmo preço e inclui museus e ônibus urbano, então costuma compensar mais. Não há voo direto do Brasil: as conexões mais comuns passam por Frankfurt, Munique, Roma ou Istambul.
O que os mercadores escreviam nos bilhetes rúnicos de Bergen?
De 1360 a 1754, a Liga Hanseática manteve em Bergen um de seus principais escritórios no exterior, o Kontor. O negócio era o bacalhau seco (stockfish), que vinha do norte da Noruega e era trocado por cereais trazidos da Alemanha. Os mercadores alemães viviam no cais de Bryggen, só entre homens, em prédios de madeira compridos que funcionavam como armazém, escritório e dormitório. O conjunto foi reconstruído do mesmo jeito depois de vários incêndios, o maior em 1702, e é patrimônio da UNESCO desde 1979. As passagens de madeira entre os prédios podem ser percorridas de graça.

Depois de um incêndio em 1955, escavações em Bryggen encontraram cerca de 670 inscrições rúnicas medievais, a maioria em pequenos pedaços de madeira. Elas mostram como as pessoas comuns se comunicavam: cartas e pedidos de negócios, etiquetas de propriedade do tipo “Eysteinn é meu dono”, um recado de uma mulher chamada Gyða mandando alguém voltar para casa e até um “meu amor, me beija”. Parte delas está exposta no Bryggens Museum, no fim do cais, que pouca gente visita.
Atenção ao Museu Hanseático: o prédio principal, o Finnegården, está em restauração, sem data de reabertura. As Schøtstuene, salões onde os mercadores comiam e se aqueciam no inverno, seguem abertas, com uma ruína medieval sob piso de vidro. O ingresso custa NOK 160 para adultos (NOK 80 para estudantes), menores de 18 anos não pagam, e de maio a outubro abre todos os dias das 10h às 18h. Bergen fica a cerca de 7 horas de trem de Oslo, numa das ferrovias mais bonitas da Europa.
Como funcionava o guindaste movido a gente em Gdańsk?
Gdańsk, chamada de Danzig em alemão, exportava os cereais da Polônia para os Países Baixos e o resto da Europa. Para carregar os navios, a cidade construiu no século XV o Żuraw, à beira do rio Motława, considerado o maior e mais antigo guindaste portuário medieval da Europa. Ele era movido por homens caminhando dentro de rodas de madeira de 6 a 6,5 metros de diâmetro, como numa roda de hamster gigante, e levantava cargas e até mastros de navios. O prédio também servia de portão da cidade.

O Żuraw faz parte do Museu Marítimo Nacional. O ingresso custa cerca de 23 zł (reduzido: 17 zł), e às quartas-feiras a entrada é gratuita. Para completar o roteiro, atravesse o rio até a Ilha dos Celeiros (Wyspa Spichrzów), onde ficavam os armazéns de grãos, e visite a Corte de Artus, na Rua Longa, o salão onde os mercadores ricos se reuniam. Gdańsk fica a cerca de 3 horas de trem rápido de Varsóvia.
Onde ver cada herança do comércio medieval e quanto custa?
| Cidade | O que ela deixou | Onde ver | Preço em 2026 |
|---|---|---|---|
| Troyes | A onça troy e as letras de câmbio | Centro de enxaimel e Maison de l’Outil | Rua grátis; museu €8 |
| Bruges | A palavra “bolsa” | Huis ter Beurze, perto da praça Jan van Eyck | Grátis (por fora) |
| Dubrovnik | A quarentena | Lazareti, no bairro de Ploče, e o porto antigo | Lazareti por fora grátis; muralhas €40 |
| Bergen | Bilhetes rúnicos do dia a dia | Bryggens Museum e Schøtstuene | Schøtstuene NOK 160 |
| Gdańsk | O guindaste movido a gente | Żuraw, à beira do Motława | Cerca de 23 zł; grátis às quartas |
Dá para juntar as cinco cidades numa viagem só?
Na prática, não vale a pena. Elas formam três roteiros diferentes. Troyes, Provins e Bruges cabem numa mesma viagem a partir de Paris, de trem. Dubrovnik combina com a costa da Croácia. Bergen e Gdańsk ficam no norte e funcionam melhor como viagens separadas, a partir de Oslo e de Varsóvia.
Onde ver transporte e melhor época de cada país?
Os lugares deste guia ficam em países diferentes, e cada um tem a sua melhor época, o seu jeito de chegar e as suas regras de entrada. Em vez de repetir essas informações aqui, elas estão reunidas e atualizadas nos guias por país:
Fontes
- Troyes la Champagne Tourisme: Maison de l’Outil et de la Pensée Ouvrière
- Wikipedia: Champagne fairs, Troy weight e Huis ter Beurze
- UNESCO: Historic Centre of Brugge
- Absolute Croatia: Dubrovnik City Walls
- The Hanseatic Museum and Schøtstuene: Prices and tickets
- Museu Marítimo Nacional de Gdańsk: Crane
- UNESCO: Old City of Dubrovnik e Bryggen
- Time Out Croatia: The history of quarantines in the city that invented them
- Wikipedia: Bryggen inscriptions
- Visit Bergen: The Hanseatic Museum and Schøtstuene (2026)
Este guia reúne e atualiza textos publicados anteriormente no lunova3. Revisado em outubro de 2026.
Helena Nascimento é formada em História e mora no interior de São Paulo, em uma cidade turística. No lunova3, pesquisa a história de vilarejos, castelos e tradições da Europa e organiza guias em português para quem está planejando uma viagem, com fontes oficiais citadas e dados conferidos.