Na Europa, ainda dá para atravessar pontes e passar por portões construídos na Idade Média do mesmo jeito que se fazia há 600 ou 900 anos: a pé, de bicicleta e, em alguns casos, até de carro. Este guia reúne dez deles em oito países, de uma ponte com 32 casas em cima, em Erfurt, a um portão onde os reis poloneses começavam o caminho da coroação, em Cracóvia. Para cada um, você encontra a história, o detalhe que quase todo mundo deixa passar, quanto custa e como chegar.
Por que tantas pontes e portões medievais continuam em uso?
Uma ponte de pedra bem construída podia durar mais que a cidade que a encomendou. Muitas caíram com cheias, guerras ou com a chegada do trem e do carro, que pediam vias mais largas. As que sobreviveram costumam estar em cidades que perderam importância depois da Idade Média e não precisaram derrubá-las. Com os portões aconteceu algo parecido: na maioria das cidades eles viraram monumentos isolados no meio do trânsito, mas em algumas continuam sendo a porta de entrada do centro histórico, por onde passam moradores, entregadores e turistas.
Por que os ônibus deixaram a Ponte de Pedra de Regensburg?

Construída entre 1135 e 1146, a Steinerne Brücke tem cerca de 300 metros e 16 arcos sobre o Danúbio e serviu de modelo para outras pontes da Europa Central. Por mais de 800 anos passou por ela todo tipo de tráfego, de mercadores e peregrinos a carroças e, no século XX, ônibus. Os ônibus só deixaram de cruzá-la em 2008, quando o desgaste ficou evidente. Depois de uma longa restauração, ela ficou reservada a pedestres e bicicletas.
Detalhe que passa batido: no meio da ponte fica o Bruckmandl, uma pequena figura de pedra sobre a mureta. A lenda local diz que ela lembra uma aposta entre o construtor da ponte e o da catedral para ver quem terminaria primeiro. Na cabeceira, a Historische Wurstkuchl serve salsichas grelhadas no mesmo ponto há séculos e se diz a lanchonete do gênero mais antiga do mundo. O centro medieval de Regensburg é patrimônio da UNESCO desde 2006. Como chegar: cerca de 1h30 de trem de Munique ou 1 hora de Nuremberg.
Como é morar em cima de uma ponte em Erfurt?

Em Erfurt, na Turíngia, a ponte é também uma rua. A Krämerbrücke (“ponte dos merceeiros”), de pedra desde 1325, tem casas dos dois lados ao longo de cerca de 120 metros e é a ponte habitada mais longa da Europa. As 32 casas atuais têm lojas no térreo, com artesanato, chocolate, cerâmica e antiguidades, e moradores nos andares de cima. Quem atravessa nem percebe que está sobre o rio Gera, a não ser que desça até a margem para ver os arcos.
Detalhe que passa batido: a igreja de Santo Egídio, numa das cabeceiras, tem uma torre aberta à visitação com vista para os telhados da ponte. Em junho, a Krämerbrückenfest transforma a ponte numa feira medieval. Como chegar: Erfurt fica a cerca de 2h15 de trem ICE de Frankfurt e a cerca de 1h45 de Berlim.
Quem é o diabinho da ponte de Cahors?

A Pont Valentré, em Cahors, no sudoeste da França, foi construída entre 1308 e 1378 sobre o rio Lot. Tem três torres, que funcionavam como postos de vigilância e de cobrança de pedágio. Hoje é usada por pedestres e faz parte do Caminho de Santiago, na Via Podiensis, então cruza com peregrinos de mochila praticamente o ano todo.
A obra demorou tanto que surgiu uma lenda: o construtor teria feito um pacto com o diabo para terminá-la e depois o enganou. Na restauração de 1879, o arquiteto acrescentou no alto da torre central uma pequena estátua de diabinho agarrado à pedra, em referência à história. Procure por ela antes de atravessar. Como chegar: cerca de 1h15 de trem de Toulouse.

Por que uma rainha mandou construir a ponte de Puente la Reina?

A cidade tem o nome da ponte. No século XI, uma rainha de Navarra mandou construir uma ponte românica de seis arcos sobre o rio Arga para que os peregrinos a caminho de Santiago de Compostela não precisassem pagar os barqueiros. Quase mil anos depois, ela continua cumprindo a mesma função: é ali que se juntam os caminhos de Santiago que vêm de Roncesvalles e de Somport, e por ela passam milhares de peregrinos por ano. Como chegar: Puente la Reina fica a 25 km de Pamplona, a cerca de 30 minutos de ônibus.
Qual parte da ponte de Ponte de Lima é romana?

Ponte de Lima, no Minho, se diz a vila mais antiga de Portugal: recebeu foral da rainha D. Teresa em 1125. A ponte sobre o rio Lima mistura um trecho romano, na margem direita, com a parte medieval, do século XIV, de vários arcos. Hoje é só para pedestres, e por ela passa o Caminho Português de Santiago.
Detalhe que passa batido: na margem direita há estátuas de legionários romanos. Elas lembram a lenda de que, por volta de 137 a.C., os soldados do general Décimo Júnio Bruto se recusaram a atravessar o Lima, que confundiam com o Lete, o rio do esquecimento. O general cruzou sozinho e chamou cada soldado pelo nome do outro lado, provando que não tinha esquecido nada. A cada quinze dias, às segundas-feiras, a margem do rio recebe uma feira que existe desde o foral de 1125. Como chegar: de ônibus a partir do Porto, em cerca de 1h a 1h30.
Por que a Porta da Vila de Óbidos faz uma curva?
É a entrada principal da vila murada de Óbidos. Em vez de um túnel reto, a passagem faz uma curva em cotovelo, um desenho típico das portas medievais da região, que impedia a entrada em linha reta e facilitava o controle de quem chegava. Lá dentro há um pequeno oratório revestido de azulejos azuis e brancos do século XVIII, com cenas da Paixão de Cristo, e muitas vezes um músico tocando guitarra portuguesa sob a abóbada. Custo: gratuito. Como chegar: cerca de 1 hora de ônibus expresso a partir de Lisboa.

Por qual portão os reis entravam em Cracóvia?

A Brama Floriańska, o Portão de São Floriano, de cerca de 1300, é o único que restou dos oito portões da Cracóvia medieval. Por ele começava a Via Real: os reis poloneses entravam na cidade, seguiam pela rua Floriańska até a praça do mercado e subiam ao castelo de Wawel para a coroação. Hoje é a entrada mais movimentada da cidade velha para quem vem da estação de trem, e do lado de dentro pintores amadores penduram quadros na muralha para vender.
Detalhe que passa batido: do lado de fora, o portão tem uma águia polonesa em relevo; do lado de dentro, uma imagem de São Floriano, padroeiro contra incêndios. Logo à frente fica a Barbacã, de 1498, uma construção redonda de tijolo com 130 aberturas de tiro, entre as mais bem conservadas da Europa. Atravessar o portão é gratuito; a Barbacã é paga, com ingresso do Museu de Cracóvia.
Como os carros passam pelo portão de Dinkelsbühl?

Dinkelsbühl, na Rota Romântica da Baviera, tem muralhas tão completas quanto as de Rothenburg e bem menos turistas. O Wörnitztor é o mais antigo dos quatro portões da cidade e dá passagem para a ponte sobre o rio Wörnitz. Carros e bicicletas ainda passam por baixo do arco, um sentido de cada vez, controlados por semáforo.
Detalhe que passa batido: à noite, o vigia noturno da cidade ainda faz a ronda com lanterna e alabarda, cantando os versos tradicionais, e turistas podem acompanhar de graça. Em meados de julho, a Kinderzeche, festa histórica de dez dias, reencena com moradores em trajes do século XVII a lenda das crianças que salvaram a cidade em 1632. Como chegar: Dinkelsbühl não tem trem regular de passageiros. Chega-se de ônibus a partir de Ansbach ou de Crailsheim, ou de carro, a cerca de 1h30 de Nuremberg.
O que se vende ao lado do Portão de Viru em Tallinn?

As duas torres redondas do Viru värav, do século XIV, são o que restou de um conjunto maior de portão e barbacã. Elas marcam a entrada da Cidade Velha para quem vem do lado dos hotéis modernos e do porto, e a rua Viru, que começa ali, é a mais movimentada do centro histórico.
Detalhe que passa batido: ao lado das torres funcionam há décadas barracas de flores abertas até tarde. Um pouco antes, colada à muralha, fica a Muurivahe, uma rua estreita onde mulheres vendem suéteres de lã tricotados à mão. Custo: gratuito.
Por que os portões de York se chamam bars?

York conserva a maior parte das muralhas medievais e quatro grandes portões, que lá se chamam bars, palavra antiga para barreira. O Micklegate Bar, na estrada que vinha de Londres, era a entrada cerimonial: os reis que visitavam York entravam por ele e paravam para receber as chaves da cidade. Também era ali que se expunham as cabeças de condenados. Em 1460, a cabeça de Ricardo, duque de York, foi exposta no portão, episódio que Shakespeare usou em Henrique VI. Hoje o trânsito passa pelos arcos laterais.
Detalhe que passa batido: o percurso sobre as muralhas, com cerca de 3,4 km, é gratuito e abre todos os dias, das 8h ao anoitecer, fechando em dias de gelo. Como chegar: York fica a cerca de 2 horas de trem de Londres.
Quanto custa visitar e qual a melhor época?
| Lugar | Uso hoje | Custo |
|---|---|---|
| Steinerne Brücke, Regensburg | Pedestres e bicicletas | Grátis |
| Krämerbrücke, Erfurt | Rua com lojas e moradores | Grátis |
| Pont Valentré, Cahors | Pedestres e peregrinos | Grátis |
| Puente la Reina | Caminho de Santiago | Grátis |
| Ponte de Lima | Pedestres e Caminho Português | Grátis |
| Porta da Vila, Óbidos | Entrada principal da vila | Grátis |
| Brama Floriańska, Cracóvia | Entrada da cidade velha | Grátis; Barbacã paga |
| Wörnitztor, Dinkelsbühl | Carros, bicicletas e pedestres | Grátis |
| Portão de Viru, Tallinn | Entrada da Cidade Velha | Grátis |
| Micklegate Bar, York | Trânsito nos arcos laterais | Grátis, incluindo o passeio nas muralhas |
Para fotografar sem multidão, vá logo cedo ou ao entardecer. Em julho, nas férias brasileiras, Regensburg, Erfurt e Cahors estão em plena temporada, os caminhos de Santiago ficam cheios de peregrinos e Dinkelsbühl faz a Kinderzeche. Em dezembro, Cracóvia, Tallinn e York montam mercados de Natal perto dos portões. Do Brasil, Lisboa, Madri, Londres e Frankfurt têm voos diretos e servem de porta de entrada para esses roteiros.
E as fontes medievais?
As fontes que abasteciam as cidades medievais, como a Fontana Maggiore de Perugia, a Fonte Gaia de Siena e a Schöner Brunnen de Nuremberg, ganharam um guia próprio, com os túneis subterrâneos de Siena e a estátua de Vênus que a cidade enterrou em território inimigo: Fontes medievais da Itália e da Alemanha e os aquedutos escondidos por trás delas.
Como planejar a visita
Os lugares deste guia ficam em países diferentes, e cada um tem a sua melhor época, o seu jeito de chegar e as suas regras de entrada. Em vez de repetir essas informações aqui, elas estão reunidas e atualizadas nos guias por país:
Fontes
- UNESCO: Old Town of Regensburg with Stadtamhof
- Erfurt Tourismus: erfurt-tourismus.de
- Wikipedia: Stone Bridge (Regensburg), Krämerbrücke e Pont Valentré
- Município de Ponte de Lima: cm-pontedelima.pt
- Câmara Municipal de Óbidos: cm-obidos.pt
- Museu de Cracóvia: muzeumkrakowa.pl
- Dinkelsbühl Tourismus: tourismus-dinkelsbuehl.de
- Visit Tallinn: visittallinn.ee
- City of York Council: York city walls
Este guia reúne e atualiza textos publicados anteriormente no lunova3. Revisado em outubro de 2026.
Helena Nascimento é formada em História e mora no interior de São Paulo, em uma cidade turística. No lunova3, pesquisa a história de vilarejos, castelos e tradições da Europa e organiza guias em português para quem está planejando uma viagem, com fontes oficiais citadas e dados conferidos.