Danças e festas populares de pequenas vilas europeias

Figurantes vestidos com trajes medievais durante o desfile do Casamento de Landshut, na Alemanha

Casamento de Landshut (Landshuter Hochzeit), Alemanha. Foto: Alexander Z. / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Muitos vilarejos históricos da Europa mantêm vivas tradições que atravessaram séculos, transformando dança, música e celebração religiosa em parte do calendário anual. Diferente de espetáculos criados apenas para turistas, essas festas nasceram de eventos históricos específicos, casamentos reais, batalhas, colheitas e celebrações litúrgicas, e sobreviveram graças ao trabalho de associações locais, arquivos históricos e à participação direta da população. A seguir, conheça quatro celebrações reais, com datas, origens e detalhes que ajudam a entender por que continuam atraindo visitantes do mundo todo.

Casamento de Landshut, Alemanha, a reconstituição de um casamento real de 1475

A Landshuter Hochzeit (Casamento de Landshut) acontece a cada quatro anos na cidade bávara de Landshut e é uma das maiores reconstituições históricas da Europa. O evento recria o casamento entre Jorge da Baviera e a princesa polonesa Edviges Jagelão, celebrado em 1475 na Igreja de São Martinho. Segundo os registros da época, cerca de 10 mil convidados participaram da festa original, na qual foram consumidos 320 bois, 1.500 ovelhas e 40 mil galinhas, fornecidos pelo pai do noivo.

A reconstituição moderna começou em 1903, depois que pinturas do casamento foram incluídas na decoração do salão de festas da prefeitura de Landshut, inspirando moradores a recriar o evento. Hoje, mais de 2 mil moradores participam como atores, usando trajes de época, e a festa reúne entre 600 mil e 700 mil visitantes ao longo de três semanas. A próxima edição está prevista para 2027, já que o evento é quadrienal.

La Patum de Berga, Espanha, patrimônio da UNESCO com raízes no século XIV

Na cidade catalã de Berga, a festividade La Patum acontece todos os anos durante o Corpus Christi e é reconhecida pela UNESCO desde 2005 como uma Obra-Prima do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. O primeiro registro conhecido da procissão de Corpus Christi na cidade data de 20 de maio de 1454, embora a festividade tenha raízes ainda mais antigas em celebrações pré-cristãs do solstício de verão.

A celebração é organizada em “salts” (saltos): sequências dançadas que incluem figuras como gigantes, os “plens” (personagens cobertos de fogos de artifício) e criaturas fantásticas, acompanhadas pelo som do tabal, o tambor que dá nome à festa. O evento principal, chamado Patum Completa, acontece nas noites de quinta-feira e domingo da semana de Corpus Christi.

Palio di Siena, Itália, a corrida de cavalos que divide a cidade em bairros rivais

Na Piazza del Campo, em Siena, o Palio di Siena é disputado duas vezes por ano, em 2 de julho (Palio di Provenzano) e 16 de agosto (Palio dell’Assunta), em uma tradição registrada desde 1633. Dez das dezessete “contrade” (bairros históricos da cidade) disputam a corrida, com cavaleiros montando sem sela.

Antes da corrida, acontece o Corteo Storico, um desfile histórico com trajes medievais e renascentistas representando cada contrada. A prova em si dá apenas três voltas na praça e costuma durar menos de 90 segundos, mas é precedida por dias de rituais, bênçãos dos cavalos nas igrejas de cada bairro e disputas simbólicas entre as contrade.

Festa dos Tabuleiros, Tomar, Portugal, o desfile das bandejas de pão

Em Tomar, no centro de Portugal, a Festa dos Tabuleiros ocorre a cada quatro anos, em julho, com origem em rituais associados ao Culto do Império do Divino Espírito Santo, praticados desde o século XIII. A última edição aconteceu entre 2 e 10 de julho de 2023.

O elemento central da festa é o tabuleiro: uma estrutura com 30 pães empilhados em cinco ou seis fileiras, decorada com flores de papel e encimada por uma coroa com uma pomba branca ou uma esfera armilar, símbolo das navegações portuguesas. Jovens da cidade desfilam em pares pelas ruas carregando os tabuleiros na cabeça, em um dos cortejos mais fotografados de Portugal.

Por que essas tradições continuam vivas

Em comum, essas quatro celebrações dependem da colaboração entre associações culturais, arquivos municipais e moradores dispostos a assumir papéis, confeccionar trajes e transmitir a tradição às gerações seguintes. Muitas contam com documentação histórica detalhada, atas, pinturas, crônicas, que permite reconstituir com precisão elementos que, de outra forma, teriam se perdido.

Para quem viaja pela Europa, planejar a visita de acordo com o calendário dessas festas oferece uma experiência muito mais próxima da história real desses vilarejos do que uma visita comum, permitindo ver, ouvir e às vezes participar de tradições com séculos de existência.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *