Besalú, na Catalunha, e Třebíč, na República Tcheca, são duas cidades pequenas que guardam alguns dos bairros judeus medievais mais bem preservados da Europa. Em Besalú fica o único banho ritual judaico (miqvé) românico conhecido na Espanha, descoberto por acaso em 1964. Em Třebíč, o bairro judeu inteiro, com 123 casas, duas sinagogas e um cemitério de cerca de 4 mil lápides, é patrimônio da UNESCO. As duas recebem uma fração dos turistas de Barcelona ou Praga, mesmo estando a menos de 2 horas delas. Este guia responde o que ver em cada uma, como visitar o que fica fechado ao público e como encaixá-las numa viagem.
Por que Besalú e Třebíč têm bairros judeus tão bem conservados?
Nas duas cidades, a comunidade judaica teve peso e organização próprios. Em Besalú, os judeus aparecem em documentos desde 1229, e em 1342 a comunidade se tornou independente da de Barcelona, com cerca de 200 pessoas, um quarto da população da vila. Em Třebíč, o bairro chegou a ter magistrado e conselheiros eleitos pelos próprios moradores, algo raro na Europa da época. Depois, as duas cidades perderam importância, e foi justamente o esquecimento que preservou as ruas, as casas e os prédios comunitários.
O que é o miqvé de Besalú e como visitar?
Besalú foi capital de um condado independente, com moeda própria, até 1111, quando passou ao domínio de Barcelona. O centro histórico de pedra fica sobre o rio Fluvià, no interior da província de Girona. Na parte baixa, junto ao rio, ficava o call, o bairro judeu.
Em 1964, durante obras num terreno onde funcionava uma tinturaria, apareceu uma sala abobadada abaixo do nível da rua: era o miqvé, o banho ritual da comunidade, provavelmente dos séculos XII ou XIII. Desce-se por 36 degraus até a pequena sala retangular, iluminada por uma janela na parede leste, onde a água do subsolo chegava naturalmente. É considerado o único miqvé românico preservado na Espanha. Ao lado, na Plaça dels Jueus, um jardim marca o lugar onde ficava a sinagoga, com vista para o rio e para a ponte. A comunidade deixou Besalú em 1435.
O miqvé só abre com visita guiada, que sai do escritório de turismo, ao lado do estacionamento gratuito antes da ponte. O ingresso custa por volta de €2,25, com saídas em horários fixos, em geral no começo e no fim da tarde. Na alta temporada, reserve com antecedência. As mesmas visitas dão acesso ao interior do mosteiro de Sant Pere e da Casa Cornellà.
Por que a ponte de Besalú tem uma torre no meio?

A ponte românica do século XII tem cerca de 135 metros, sete arcos de tamanhos diferentes e uma torre no meio, onde se cobrava pedágio de quem entrava na vila. O traçado em zigue-zague acompanha as rochas do leito do rio, onde os pilares foram apoiados. Ela já foi destruída duas vezes: em 1315, uma enchente derrubou vários arcos, e o rei Jaime II criou um imposto especial para reconstruí-la; em 1939, na Guerra Civil, tropas republicanas em retirada dinamitaram três arcos para atrasar o avanço de Franco. A reconstrução atual foi feita entre 1950 e 1960, seguindo o desenho original.
O que mais ver em Besalú além do bairro judeu?
- Mosteiro de Sant Pere: fundado em 977, com igreja de três naves e deambulatório. Na fachada há dois leões de pedra, e os capitéis internos mostram leões, macacos e serpentes.
- Casa Cornellà: casa românica civil do século XII, de três andares, com pátio de colunas: estábulo embaixo, moradia no meio e celeiro em cima.
- Igreja de Sant Vicenç: românica do século XII, com capitéis de monstros alados no portal e o túmulo gótico de Pere de Rovira, de 1413.
Como chegar: de Girona, ônibus da empresa TEISA saem da estação de trem a cada hora e levam cerca de 45 minutos. De Barcelona, o ônibus direto leva cerca de 2 horas, e de carro são uns 130 km, cerca de 1h30. Dá para combinar no mesmo dia com Castellfollit de la Roca e Olot, na região vulcânica da Garrotxa.
O que ver no bairro judeu de Třebíč?
Třebíč é uma cidade média da região de Vysočina, entre Praga e Brno. Em 2003, a UNESCO reconheceu o conjunto formado pelo bairro judeu, pelo cemitério judaico e pela Basílica de São Procópio, e por muitos anos ele foi o único monumento judaico fora de Israel na lista do Patrimônio Mundial. O bairro, na margem do rio Jihlava, tem 123 casas, duas sinagogas e um traçado de ruelas e passagens cobertas que quase não mudou desde o século XVII.
- Sinagoga dos Fundos (Zadní synagoga): do século XVII, com pinturas murais restauradas e uma maquete do antigo bairro. Em frente, a casa de Seligmann Bauer mostra como vivia uma família judia de classe média no começo do século XX.
- Sinagoga da Frente: a mais antiga ainda de pé, de meados do século XVII. Hoje é usada pela Igreja Hussita Checoslovaca.
- Cemitério judaico: na encosta acima do bairro, com cerca de 4 mil lápides, divididas numa parte do século XV e outra do século XIX.
- Basílica de São Procópio: construída no século XIII como igreja de um mosteiro beneditino, mistura românico e gótico. A cripta e o portal norte, com relevos de pedra, estão entre as obras medievais mais importantes da Europa Central.
O que aconteceu com os moradores judeus de Třebíč?
Em 1890, cerca de 1.500 judeus viviam em Třebíč. Na década de 1930 eram uns 300. Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas deportaram e assassinaram a comunidade, e só dez pessoas voltaram depois da guerra. As casas passaram a outros moradores, e hoje o bairro é habitado por famílias não judias. Saber disso muda a visita: o cemitério e a casa de Seligmann Bauer são, na prática, os principais lugares de memória dessa comunidade.
Há um ingresso combinado com desconto, válido por 48 horas, que inclui a basílica, a Sinagoga dos Fundos e a casa de Seligmann Bauer, vendido nos centros de informação turística junto à basílica e à sinagoga. Como chegar: de Brno, o trem leva cerca de 1h15. De Praga, são cerca de 2h30 a 3h de trem ou ônibus, com troca. A República Tcheca usa a coroa tcheca, e cartão é aceito na maioria dos lugares.
E San Marino e Monsanto?

San Marino, o país de 61 km² encravado na Itália que se diz a república mais antiga do mundo, e Monsanto, a aldeia portuguesa construída entre blocos de granito, também ficam fora dos roteiros principais. Para não repetir informação, o que ver nas duas está num guia próprio, com o trem histórico de San Marino que voltou a circular em 2026, a necrópole de túmulos escavados na rocha de Monsanto, preços e como chegar: San Marino e Monsanto pelo lado que os turistas não veem.
Roteiro grátis para baixar: Portugal medieval em 5 dias, com Lisboa, Óbidos, Coimbra e Monsanto, checklist de documentos e melhor época. PDF de 3 páginas, para imprimir ou levar no celular.
Como planejar a visita
Os lugares deste guia ficam em países diferentes, e cada um tem a sua melhor época, o seu jeito de chegar e as suas regras de entrada. Em vez de repetir essas informações aqui, elas estão reunidas e atualizadas nos guias por país:
Fontes
- Wikipedia: Besalú
- Visit Třebíč: Zadní synagoga, Bazilika sv. Prokopa e ingresso combinado
- UNESCO: Jewish Quarter and St Procopius’ Basilica in Třebíč
- Visit Rimini: San Marino Multi-Museum Pass
- UNESCO: San Marino Historic Centre and Mount Titano
- Turismo Centro de Portugal: Aldeia de Monsanto ou “Monte Santo”
- Tapa ao Sal: Monsanto: o que visitar na aldeia mais portuguesa
- Visitar Portugal: Monsanto, Idanha-a-Nova
- Jewish Guide Europe: Besalú (história da comunidade e do miqvé)
- Barcelona Urbana: Besalú guide (2026)
- Wikipedia: Jewish Quarter of Třebíč
Este guia reúne e atualiza textos publicados anteriormente no lunova3. Revisado em outubro de 2026.
Helena Nascimento é formada em História e mora no interior de São Paulo, em uma cidade turística. No lunova3, pesquisa a história de vilarejos, castelos e tradições da Europa e organiza guias em português para quem está planejando uma viagem, com fontes oficiais citadas e dados conferidos.