Os relógios mecânicos foram inventados na Europa no fim do século XIII, e alguns dos primeiros ainda funcionam: o da catedral de Salisbury, de cerca de 1386, o da catedral de Wells, o Gros-Horloge de Rouen e o Orloj de Praga, de 1410. Antes deles, e ainda por muito tempo depois, a hora não era vista, era ouvida, pelo toque dos sinos. Este guia mostra o que observar em cada um desses relógios, como ler o mostrador de Praga, quanto custa visitar e por que Monemvasia, um rochedo no sul da Grécia, ainda vive no ritmo dos sinos das igrejas.
A hora que se ouvia antes de se ver
Na Idade Média, o dia era dividido pelas horas canônicas, os momentos de oração dos mosteiros: matinas, laudes, prima, terça, sexta, nona, vésperas e completas. Os sinos anunciavam cada uma, e a cidade usava esse som para começar e encerrar o trabalho, abrir e fechar os portões e convocar os moradores. Os primeiros relógios mecânicos, no fim do século XIII, não tinham mostrador: serviam para fazer o sino tocar na hora certa. Ter um relógio público logo virou sinal de prestígio, e as cidades passaram a disputar quem tinha o mais elaborado.
Palavras que nasceram do som dos sinos
- Clock e cloche: a palavra inglesa para relógio, clock, vem do latim medieval clocca, que significava sino. É a mesma origem do francês cloche e do alemão Glocke, os dois querendo dizer sino.
- Sesta: o descanso depois do almoço vem da “hora sexta”, a sexta hora contada a partir do amanhecer, que caía por volta do meio-dia.
- Toque de recolher: o equivalente em inglês, curfew, vem do francês couvre-feu, “cobrir o fogo”. Era o sino que avisava à noite que as lareiras deviam ser cobertas, para evitar incêndios nas casas de madeira.
Salisbury e o relógio sem mostrador

Na nave da catedral de Salisbury há uma estrutura de ferro forjado do tamanho de um armário, cheia de rodas dentadas e pesos de pedra. É o relógio da catedral, de cerca de 1386, apontado com frequência como o relógio mecânico mais antigo do mundo ainda em funcionamento. Ele não tem ponteiros nem mostrador: foi feito apenas para tocar um sino. Ficou esquecido na torre por séculos, foi redescoberto em 1929, restaurado em 1956 e hoje funciona à vista dos visitantes. Na mesma catedral, a sala capitular guarda um dos quatro exemplares originais da Magna Carta, de 1215. Como chegar: cerca de 1h30 de trem a partir da estação de Waterloo, em Londres.
Wells e o mostrador com a Terra no centro

A cerca de 100 km de Salisbury, a catedral de Wells tem um relógio astronômico feito entre 1386 e 1392. O mostrador interno mostra o universo como se via na Idade Média: a Terra no centro, com o Sol e a Lua girando em volta, num círculo de 24 horas com o meio-dia no alto. A cada quarto de hora, figuras de madeira se movem acima do mostrador, e ao lado o boneco Jack Blandifer bate os sinos com os pés e com um martelo.
O mecanismo original foi levado em 1884 para o Science Museum, em Londres, onde ainda funciona. O de Wells é uma substituição que continua movendo os mesmos mostradores e figuras. Até por volta de 2010, o relógio era acertado à mão por um funcionário da catedral várias vezes por semana. Como chegar: Wells não tem estação de trem; de Bristol ou de Bath, ônibus chegam em cerca de 1 hora.
Rouen e o relógio de um ponteiro só

O Gros-Horloge de Rouen, na Normandia, fica sobre um arco renascentista que atravessa a rua principal do centro histórico. O mostrador dourado tem um único ponteiro, porque na época os minutos não importavam para a vida cotidiana. Embaixo, uma janelinha mostra a divindade ligada ao dia da semana, sobre uma carruagem, e um globo acima do mostrador mostra as fases da Lua. Repare também nas ovelhas esculpidas: lembram que a riqueza de Rouen vinha do comércio de lã. O mecanismo do século XIV e os sinos mais antigos da cidade podem ser vistos no campanário, que tem vista panorâmica sobre a catedral pintada por Monet.
A visita, com audioguia em oito idiomas, custa €7,85 (€4 reduzida, de 6 a 18 anos) e abre de terça a domingo: de abril a setembro, das 10h às 13h e das 14h às 19h; de outubro a março, só à tarde, das 14h às 18h. Como chegar: cerca de 1h15 de trem a partir da estação Saint-Lazare, em Paris.
Praga e o mostrador que mostra três tipos de hora

O Orloj, o relógio astronômico da prefeitura da Cidade Velha de Praga, foi criado em 1410 pelo relojoeiro Mikuláš de Kadaň e pelo professor de matemática e astronomia Jan Šindel, da Universidade Carolina. O calendário pintado embaixo foi acrescentado por volta de 1490, e o desfile dos doze apóstolos nas janelinhas, depois de um grande conserto entre 1787 e 1791. A última restauração completa terminou em setembro de 2018.
Para ler o mostrador, que quase todo turista fotografa sem entender:
- Hora local: a mão dourada aponta para os algarismos romanos da borda, que mostram a hora de Praga.
- Hora antiga da Boêmia: o anel externo, com números em letra gótica, conta as horas a partir do pôr do sol, como se fazia na cidade medieval.
- Dia e noite: o fundo azul é a parte do céu acima do horizonte, o preto é a noite e o vermelho marca o amanhecer e o entardecer. Onde o Sol está, essa é a fase do dia.
- Lua: a esfera metade prateada gira sozinha, movida pela gravidade, e mostra a fase da Lua.
O calendário de baixo, com os trabalhos do campo de cada mês, é uma cópia de 1880; as pinturas originais de Josef Mánes, de 1866, estão no Museu da Cidade de Praga. O desfile dos apóstolos acontece de hora em hora, das 9h às 23h. Os das 11h e do meio-dia são os mais cheios, e os das 9h e das 22h têm bem menos gente. A torre da prefeitura tem elevador e mirante a cerca de 65 metros: o ingresso custa cerca de 250 coroas tchecas para adultos e 150 para crianças de 6 a 15 anos, ou 350 com audioguia.
Monemvasia, o rochedo que vive pelo som dos sinos

Monemvasia é um rochedo no sul do Peloponeso ligado ao continente por uma única passagem estreita. O nome vem daí: moni emvasia quer dizer “entrada única”. Do lado da estrada só se vê pedra; a cidade fica escondida do outro lado, voltada para o mar, e não entra carro nas ruas. Por isso o que marca o ritmo do dia não é o trânsito, e sim os sinos das igrejas, que avisam a liturgia, os casamentos, os enterros e as festas dos santos.
A cidade foi fundada no fim do século VI por gregos bizantinos e, nos séculos XII e XIII, era um porto rico entre Veneza e Constantinopla. Exportava um vinho doce que ficou famoso na Europa com o nome de malvasia, palavra que vem do próprio nome da cidade. Depois passou por governos venezianos e otomanos, até fazer parte da Grécia moderna, no século XIX. Cada período deixou igrejas: a cidade baixa chegou a ter dezenas delas. Hoje tem poucas dezenas de moradores fixos, a maioria das casas virou pousada, mas as igrejas principais continuam com missa, e os sinos seguem tocando.
Elkomenos Christos, na praça principal
É a catedral da cidade baixa, dedicada ao “Cristo Acorrentado”. A fundação é bizantina, e o prédio foi ampliado no fim do século XVII. O campanário, separado da igreja, é o sino que se ouve de quase todo o rochedo. Em frente funciona a pequena Coleção Arqueológica, numa antiga mesquita, com cerâmicas e esculturas encontradas no rochedo.

Panagia Myrtidiotissa, junto à muralha do mar
Igreja menor, de fachada branca, com um campanário simples típico do litoral grego. É uma das mais fotografadas da cidade baixa por causa da vista para o mar.
Agia Sofia, no alto do rochedo
A subida para a cidade alta leva de 20 a 25 minutos por uma rampa em zigue-zague, sem sombra. Lá em cima quase tudo é ruína, menos a igreja de Agia Sofia, do século XII, na beira do penhasco. É o único edifício inteiro da cidade alta, abandonada no século XIX, e ainda guarda restos de afrescos bizantinos.

Quando os sinos de Monemvasia tocam mais
- Semana Santa e Páscoa ortodoxa: a data muda todo ano e muitas vezes não coincide com a Páscoa do Brasil. Na Sexta-Feira Santa, os sinos tocam em tom de luto e a procissão do Epitáfio percorre as ruas à luz de velas. À meia-noite do sábado, sinos e fogos anunciam a Ressurreição.
- 23 de julho: a cidade comemora a data, em 1821, em que passou a fazer parte da Grécia moderna, com celebrações religiosas, música e fogos. Cai nas férias escolares brasileiras.
- Festas dos santos: no dia do santo de cada igreja, a capela correspondente abre e recebe moradores dos vilarejos vizinhos.
Ficha rápida dos relógios
| Relógio | Data | O que acontece | Custo |
|---|---|---|---|
| Catedral de Salisbury | Cerca de 1386 | Mecanismo sem mostrador funcionando na nave | Na visita à catedral |
| Catedral de Wells | 1386 a 1392 | Figuras se movem a cada 15 minutos | Na visita à catedral |
| Gros-Horloge, Rouen | Mecanismo do século XIV | Mostrador de um ponteiro e campanário com vista | €7,85 |
| Orloj, Praga | 1410 | Desfile dos apóstolos de hora em hora, das 9h às 23h | Desfile grátis; torre cerca de 250 coroas |
Como planejar a visita
Os lugares deste guia ficam em países diferentes, e cada um tem a sua melhor época, o seu jeito de chegar e as suas regras de entrada. Em vez de repetir essas informações aqui, elas estão reunidas e atualizadas nos guias por país:
Fontes
- Prague Trip: Old Town Hall tickets 2026
- Wikipedia: Wells Cathedral clock, Salisbury Cathedral clock e Gros Horloge
- Science Museum: Winding the Wells
- Home Office: ETA factsheet, abril de 2026
- Comissão Europeia: ETIAS, informações oficiais
- Greeka: Travel to Monemvasia by bus and car
- Athens Glance: Monemvasia Greece: The Complete Guide
- Wikipedia: Monemvasia
- Prefeitura de Rouen: Gros-Horloge (horários e preços)
- Wikipedia: Prague astronomical clock
Este guia reúne e atualiza textos publicados anteriormente no lunova3. Revisado em outubro de 2026.
Helena Nascimento é formada em História e mora no interior de São Paulo, em uma cidade turística. No lunova3, pesquisa a história de vilarejos, castelos e tradições da Europa e organiza guias em português para quem está planejando uma viagem, com fontes oficiais citadas e dados conferidos.