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Relógios de torre medievais que ainda funcionam na Europa

Zytglogge, torre medieval do relógio em Berna, Suíça. Foto: Claudio Schwarz (adaptada)

Existe algo curioso em parar embaixo de uma torre medieval esperando o relógio bater a hora cheia, sabendo que aquele mecanismo, ou boa parte dele, já fazia isso séculos antes de qualquer um de nós nascer. Ao reunir os relógios de torre mais antigos da Europa que ainda funcionam, o que mais chama atenção não é só a idade das peças, mas o quanto cada cidade tratou esse objeto como algo essencial, quase uma segunda prefeitura.

Antes desses mecanismos existirem, marcar o tempo dependia de relógios de sol, velas graduadas, clepsidras (os relógios de água usados desde a Antiguidade) ou simplesmente observar a posição do Sol no céu. Funcionava, mas era impreciso e exigia alguém disposto a prestar atenção o dia inteiro, o que na prática significava um monge de plantão nos mosteiros, encarregado de acordar a comunidade para as orações nos horários certos. Foi justamente essa necessidade monástica de marcar as horas canônicas que, segundo boa parte dos historiadores da mecânica, ajudou a impulsionar as primeiras experiências com escapes mecânicos, ainda no século XIII. Só a partir daí cidades europeias em crescimento, com mais comércio e vida urbana, começaram a instalar relógios grandes em torres e prédios públicos, muitas vezes copiando ou contratando os mesmos artesãos que já construíam relógios para catedrais e abadias. A ideia era simples: dar à população uma única referência de horário, movida a pesos e engrenagens, sem eletricidade e com manutenção relativamente simples, bastava reajustar os pesos de tempos em tempos e lubrificar as peças.

Quando o relógio da torre também organizava a rotina da cidade

Na Idade Média, poucas pessoas tinham meios próprios de saber a hora, um relógio pessoal era artigo de luxo reservado a nobres e mercadores ricos. O relógio da torre resolvia isso para todo mundo: os sinos avisavam o início do comércio, os horários de celebrações públicas, a troca de turno dos guardas noturnos e o fechamento dos portões da cidade ao entardecer, o chamado toque de recolher, quando as ruas deviam ficar vazias. Em algumas cidades comerciais, o mesmo sino também marcava o início e o fim da jornada de trabalho nas oficinas dos artesãos, o que tornava o relógio, na prática, uma peça central da economia local. Ter um relógio público funcionando também dizia algo sobre a cidade, era uma espécie de cartão de visitas de organização e capacidade técnica, o que explica por que tantas cidades disputavam para ter o seu, às vezes contratando o mesmo relojoeiro que uma cidade rival só para não ficar para trás.

O Relógio Astronômico de Praga

Entre os seis relógios reunidos aqui, este é difícil de não escolher como favorito. Instalado na antiga prefeitura de Praga, na atual República Tcheca, foi inaugurado em 1410 pelo relojoeiro Mikuláš de Kadaň em parceria com o astrônomo Jan Šindel, da Universidade Carolina, e é considerado um dos relógios astronômicos mais antigos ainda em funcionamento no mundo. O mostrador mostra a posição do Sol, as fases da Lua e elementos do calendário medieval, e a cada hora cheia um conjunto de figuras esculpidas entra em movimento, o suficiente para reunir uma pequena multidão olhando para cima todos os dias.

Close-up do mostrador astronômico do Relógio de Praga, mostrando o zodíaco e os ponteiros dourados

Relógio Astronômico de Praga, na antiga Prefeitura da Cidade Velha. Foto: Godot13 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

A cada hora, a apresentação segue sempre a mesma coreografia: a caveira que representa a Morte vira a ampulheta e puxa uma corda para tocar o sino, enquanto os doze apóstolos desfilam lentamente pelas duas pequenas janelas acima do mostrador principal. Ao lado, outras figuras esculpidas reagem à passagem do tempo, entre elas a Vaidade admirando-se num espelho e a Avareza segurando uma bolsa de moedas, uma cena que já foi comparada a uma pequena peça de teatro moral medieval, encenada todos os dias há mais de seiscentos anos.

A história do relógio não foi tranquila. Em maio de 1945, durante a insurreição de Praga, parte da estrutura de madeira foi destruída por um incêndio, e o mecanismo só voltou a funcionar em 1948. Em 2018, uma nova reforma reativou um mecanismo original do século XIX que havia sido substituído por um sistema elétrico décadas antes, o relógio ficou, nesse sentido, mais antigo depois do conserto, e não mais moderno.

O relógio sem mostrador da Catedral de Salisbury

O relógio da Catedral de Salisbury segue uma lógica quase oposta à de Praga: nunca teve mostrador visível ao público. Construído por volta de 1386, é considerado por muitos especialistas o mecanismo de relógio mais antigo do mundo ainda em funcionamento, título que disputa, dependendo da fonte consultada, com o relógio de Wells, feito na mesma época e citado mais adiante neste texto. Foi projetado apenas para acionar um sino em horários marcados, sem nenhuma preocupação estética. Passou décadas esquecido dentro da torre da catedral, chegou a ser descrito como “uma pilha de ferro-velho” quando foi redescoberto por volta de 1928, e só foi restaurado de fato em 1956.

O funcionamento é cru e visível: pesos de pedra descem lentamente soltando corda enrolada em tambores de madeira, soando uma badalada a cada hora completa. Hoje o relógio fica exposto na nave principal da catedral, sem o sino original, então o golpe do martelo acontece no vazio, só para quem observa de perto. Grande parte das peças ainda é original, incluindo o chamado escape de verge and foliot, um sistema mecânico simples e um tanto impreciso que praticamente todos os relógios dessa época usavam antes da invenção do pêndulo, e que foi reinstalado em 1956 no lugar do pêndulo que havia sido acrescentado séculos depois.

Mecanismo de ferro do relógio medieval da Catedral de Salisbury, sem mostrador

Mecanismo original do relógio da Catedral de Salisbury, hoje exposto na nave principal. Foto: Hywel Williams / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Zytglogge, o símbolo de Berna

Poucas torres da Europa acumularam tantas funções diferentes quanto a Zytglogge, em Berna. Erguida por volta de 1218 como parte das fortificações da cidade, ela já serviu de portão, prisão feminina e depósito antes de ganhar um relógio, o primeiro mecanismo só foi instalado no início do século XV. Um incêndio destruiu boa parte da estrutura em 1405 e, depois da reconstrução, em 1527 todo o maquinário foi refeito pelo relojoeiro Kaspar Brunner, o mesmo responsável, anos depois, por relógios semelhantes em outras cidades suíças e alemãs.

Quatro minutos antes de cada hora cheia começa um pequeno espetáculo que reúne gente na calçada: um galo mecânico canta, um bobo da corte toca os sinos, um desfile de ursinhos gira (uma homenagem ao símbolo da cidade) e, por fim, a figura de Chronos vira a ampulheta enquanto abre e fecha a boca, contando os segundos que faltam. Hoje o conjunto reúne relógio, calendário e indicações astronômicas, e é possível visitar o interior da torre com um guia; ver as engrenagens de perto, bem maiores do que qualquer fotografia sugere, muda a percepção do tamanho da estrutura. A torre integra o centro histórico de Berna, reconhecido pela UNESCO como Patrimônio Mundial.

O Gros-Horloge de Rouen

O Gros-Horloge de Rouen, arco dourado sobre a rua principal da cidade

O Gros-Horloge de Rouen, com sua fachada dourada de 1529, visto da rua principal. Foto: DXR / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

O Gros-Horloge de Rouen guarda um detalhe curioso que passa despercebido por quem só vê a foto: o mecanismo atual, iniciado pelo relojoeiro Jourdain del Leche e concluído por Jean de Felain em 1389, originalmente não tinha mostrador, e uma volta completa do ponteiro das horas equivalia a 24 horas, não a 12. A fachada dourada que hoje aparece em toda foto de turista, com o sol e seus 24 raios sobre um fundo azul estrelado e uma pequena esfera indicando as fases da lua na parte superior, só foi acrescentada em 1529, quando o relógio passou a ocupar o arco sobre a rua onde permanece até hoje.

O cartão-postal que vemos agora é, na prática, uma atualização feita mais de cem anos depois do mecanismo original. Quem visita Rouen pode comprar ingresso para subir o próprio arco, ver de perto o mecanismo do século XIV ainda guardado ali dentro e seguir até o sino Rouvel, fundido em 1260 e um dos mais antigos da França, terminando a subida num pequeno mirante com vista para os telhados do centro histórico.

A Torre do Relógio da Praça de São Marcos, em Veneza

Em Veneza, a Torre dell’Orologio, inaugurada no final do século XV, tem um dos mostradores mais completos desta lista, com informações de calendário e dos movimentos dos astros além da hora. No topo, duas figuras de bronze conhecidas como “Mouros”, fundidas em 1497 pelo artesão Simeone Campanato, tocam o sino em horários marcados. Duas vezes por ano, na Epifania e no Dia da Ascensão, uma pequena procissão mecânica dos Três Reis Magos, guiada por um anjo, atravessa a galeria central do relógio diante da imagem da Virgem com o Menino, tradição mantida desde o século XV e que vale a pena programar a visita para acompanhar, se a data coincidir com a viagem. Quem sobe até o topo da torre, em visita guiada com reserva antecipada obrigatória, tem acesso a uma das vistas mais completas da Praça de São Marco, com a basílica e o Palácio Ducal lado a lado logo abaixo.

Torre dell'Orologio na Praça de São Marco, em Veneza, com mostrador azul e dourado

Torre dell’Orologio, na Praça de São Marco, com o mostrador de 1499 em azul e dourado. Foto: Fernando de Gorocica / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

O relógio de Wells, dono do mostrador mais antigo ainda no lugar

Menos lembrado do público brasileiro, o relógio da Catedral de Wells, no sudoeste da Inglaterra, disputa com o de Salisbury o título de mecanismo de relógio mais antigo do mundo ainda em atividade. Foi construído por volta de 1390 e é considerado o relógio astronômico mais antigo do mundo que ainda conserva seu mostrador original na posição em que foi instalado. O painel mostra a Terra fixa no centro, reflexo da visão de mundo da época, com o Sol e a Lua girando ao redor em órbitas concêntricas, além de indicar as fases lunares e os minutos, recurso raro para o século XIV.

A cada quinze minutos, um pequeno torneio mecânico entra em ação: quatro cavaleiros giram em um carrossel acima do mostrador e, a cada volta, um deles é derrubado pela lança do adversário, sempre o mesmo, pobre coitado. Do lado de fora da catedral, um boneco de madeira conhecido como Jack Blandiver marca os quartos de hora chutando dois sinos com os calcanhares. O mecanismo original de 1390 foi substituído por um novo em 1835 e hoje funciona no Science Museum, em Londres, ainda em pleno funcionamento quase duzentos anos depois, uma peça de museu que se recusa a parar.

Mostrador astronômico do relógio da Catedral de Wells, com Terra no centro e Sol e Lua ao redor

Mostrador astronômico do relógio da Catedral de Wells, o mais antigo ainda na posição original. Foto: DeFacto / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Como esses mecanismos seguem funcionando depois de tantos séculos

O que impressiona não é só a idade, é a manutenção. Engrenagens, eixos, rodas dentadas e contrapesos continuam sendo ajustados manualmente por especialistas em conservação, e em vários casos peças originais ainda estão em uso, prova de que o trabalho artesanal da época era mais preciso do que costumamos imaginar. Alguns, como o de Salisbury, ainda usam versões do sistema de escape conhecido como verge and foliot, enquanto outros foram modernizados ao longo dos séculos sem perder a essência do mecanismo. Quando alguma peça precisa ser trocada, a regra é reproduzir fielmente o material e a técnica originais, para não descaracterizar o relógio.

Vale a pena visitar?

Na minha opinião, sim, com uma ressalva: relógio de torre é melhor visto ao vivo, na hora cheia, do que em foto. Boa parte das cidades citadas aqui oferece visitas guiadas ao interior das torres, o que ajuda a entender como as engrenagens funcionam e por que aquela cidade específica decidiu investir tanto nisso. Reservar um tempo da viagem para isso, mesmo que sejam só quarenta minutos parado numa praça esperando o sino bater, é um jeito diferente de sentir a história, bem mais interessante do que apenas marcar mais um monumento numa lista de fotos.

Esse conjunto de relógios prova algo simples: muito antes de qualquer tecnologia digital, a Europa medieval já havia resolvido o problema de organizar o tempo coletivo, e resolveu tão bem que parte desses mecanismos segue girando até hoje.

Como ver o Relógio Astronômico de Praga sem virar alvo de batedor de carteira

A praça em frente ao relógio astronômico é, sem exagero, um dos pontos de maior concentração de turistas e também de batedores de carteira em Praga, então vale manter a bolsa fechada na frente do corpo bem na hora do espetáculo, quando todo mundo olha para cima e ninguém repara no bolso do vizinho. Quem quiser ver o desfile das figuras esculpidas com menos aperto pode escolher um dos horários da manhã, entre nove e dez horas, quando a praça ainda está mais vazia. Além de assistir de baixo, é possível comprar ingresso separado para subir a Torre da Prefeitura Velha, ao lado do relógio, de elevador ou por uma rampa em espiral, e o mirante no topo oferece uma das melhores vistas panorâmicas sobre os telhados vermelhos da Cidade Velha, um bom motivo para reservar uns trinta minutos a mais na visita além de apenas fotografar o mostrador.

O desfile dos apóstolos acontece a cada hora cheia, das 8h às 23h, e assistir da praça é gratuito. Para subir a Torre da Prefeitura Velha e ver o mecanismo mais de perto, o ingresso avulso custa cerca de 350 coroas tchecas para adultos (algo em torno de 14 euros), com tarifa reduzida de 230 coroas para crianças de 6 a 15 anos, idosos acima de 65 e pessoas com deficiência, e entrada gratuita para crianças até 5 anos. A torre funciona das 9h às 20h entre abril e dezembro, e das 10h às 19h entre janeiro e março, todos os dias da semana.