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Máscaras feitas à mão para o Carnaval de Veneza

Figura mascarada em traje colorido de Carnaval às margens da lagoa de Veneza, com gôndolas ao fundo

Figura mascarada às margens da lagoa de Veneza durante o Carnaval (imagem ilustrativa)

A crença mais comum sobre as máscaras venezianas é que elas nasceram para o Carnaval. Não nasceram. O primeiro registro de alguém usando máscara em Veneza, de 1268, é uma lei que proibia mascarados de atirar ovos perfumados nas ruas — quase três séculos antes de qualquer festa oficial existir. Levou até 1436 para o ofício virar profissão reconhecida, quando mestres da Guilda dos Pintores e Decoradores criaram o estatuto dos mascareri, os mestres mascareiros. E mesmo depois de virar símbolo da cidade, o costume quase desapareceu: ficou proibido por quase dois séculos sob domínio napoleônico e austríaco, só voltando a Veneza em 1979. Apesar disso, parte das máscaras vendidas hoje perto da Piazza San Marco ainda é feita como há seiscentos anos, nos poucos ateliês que resistem entre lojas de suvenir.

Linha do tempo: sete séculos de máscaras em Veneza

Antes dos detalhes, vale ver a história inteira de uma vez. Ela explica por que a máscara veneziana é menos uma fantasia de festa e mais um objeto ligado à vida política e social da República:

AnoO que aconteceu
1268Primeiro registro de mascarados: uma lei do Maggior Consiglio proíbe que eles atirem ovos perfumados nas pessoas.
1436A Guilda dos Pintores e Decoradores cria o estatuto dos mascareri, e fazer máscara vira ofício reconhecido.
1530–1600Onze mestres mascareiros aparecem nos registros da cidade, entre eles uma mulher, Barbara Scharpetta.
1638Abre o Ridotto, cassino oficial da República, onde jogar mascarado era praticamente obrigatório.
1774O Ridotto fecha, e a demanda por máscaras no dia a dia despenca.
1797Fim da República de Veneza. Sob franceses e austríacos, o Carnaval e as máscaras são proibidos.
1979O Carnaval volta oficialmente às ruas, e os ateliês ganham uma segunda vida.

Uma lei de 1268 e uma guilda que nasceu em 1436

A relação de Veneza com as máscaras é mais antiga do que qualquer registro de festa de Carnaval propriamente dita. O primeiro documento que menciona pessoas mascaradas na cidade é de 1268, uma decisão do Maggior Consiglio que tornava crime um mascarado atirar ovos cheios de água perfumada nas pessoas, uma brincadeira comum na época. Ou seja: antes de virar símbolo de festa, a máscara já era um problema de ordem pública, porque permitia esconder identidade em situações que a lei preferia vigiar.

Foi só em 1436 que os mestres da Guilda dos Pintores e Decoradores de Veneza reorganizaram formalmente a produção de máscaras, criando um estatuto próprio para os chamados mascareri, os mestres mascareiros. A partir daí, fazer máscara virou ofício reconhecido, com regras específicas de aprendizado e produção, parecidas com as que regiam os pintores da época. Entre 1530 e 1600, há registro de onze mascareiros atuando na cidade, entre eles uma mulher, Barbara Scharpetta, o que já diz algo sobre como esse ofício não era tão fechado quanto se imagina hoje.

Por que, afinal, todo mundo usava máscara

A ideia de que a máscara servia só para o Carnaval é um mal-entendido comum. Durante boa parte da história da República de Veneza, era normal circular mascarado em várias épocas do ano, não apenas nos dias de festa. A explicação é bastante prática: a máscara apagava as diferenças entre nobres, comerciantes e povo, permitindo que qualquer um frequentasse cassinos, teatros e encontros sem que a origem social pesasse contra ou a favor. No Ridotto, o cassino oficial da República dentro do Palazzo Dandolo, usar máscara era praticamente obrigatório para jogar.

Esse hábito começou a perder força justamente quando o Ridotto fechou as portas em 1774, cortando boa parte da demanda por máscaras do dia a dia. O golpe final veio com o fim da República, em 1797: sob os governos francês e austríaco que se seguiram, o Carnaval e o uso de máscaras foram proibidos, com raras exceções para eventos privados em palácios e apresentações no Teatro La Fenice. A proibição durou praticamente dois séculos, período em que o ofício dos mascareri quase desapareceu da cidade.

Os tipos de máscara e o que cada uma escondia

Os ateliês tradicionais trabalham com vários modelos diferentes, cada um com uma função histórica específica, bem distante da fantasia genérica que se vê em outros carnavais.

A bauta é talvez a mais conhecida: uma máscara branca que cobre o rosto inteiro, sem abertura para a boca, geralmente usada com um tricorne preto e uma capa chamada tabarro. O formato deixava espaço suficiente para comer, beber e falar sem tirar a máscara, o que a tornava prática para o dia a dia, inclusive para votações e decisões oficiais em que se buscava anonimato.

Máscaras venezianas douradas e ornamentadas expostas lado a lado em vitrine de ateliê
Máscaras venezianas douradas, cada uma com um desenho e expressão diferente (imagem ilustrativa).

A moretta, também chamada de muta (muda, em italiano), é uma máscara oval de veludo preto usada por mulheres, presa ao rosto por um botão que a usuária segurava com os dentes pela parte interna. O detalhe curioso é que esse sistema de fixação impedia fisicamente que a mulher falasse enquanto estivesse com a máscara, o que rendeu à peça uma fama meio ambígua: charme misterioso para uns, símbolo de silenciamento para outros.

A colombina cobre só a parte superior do rosto, deixando a boca à mostra, e costuma vir decorada com renda, pedras e purpurina. Reza a tradição que ela teria sido criada para uma atriz que não queria esconder completamente o rosto, e o nome remete à personagem Colombina da Commedia dell’Arte.

Já o volto, ou larva, é parecido com a bauta, mas mais colado ao formato do rosto, também na cor branca. E tem ainda a máscara do médico da peste, com aquele bico longo característico, criada originalmente por um médico francês no século XVII para carregar ervas aromáticas que, segundo a crença da época, filtravam o ar contaminado. Não nasceu como fantasia de Carnaval, mas acabou incorporada ao imaginário veneziano por causa da força visual do formato.

Como uma máscara veneziana é feita, do barro ao verniz

O processo de fabricação de uma máscara autêntica é bem mais demorado do que qualquer réplica de plástico injetado vendida em lojinha de suvenir. Tudo começa com um modelo esculpido em argila, a partir do qual se produz um molde de gesso. Sobre esse molde, o artesão aplica camadas de papel machê, tecido embebido em cola ou, em alguns casos, couro, deixando secar antes de destacar a peça do molde. Depois vem a etapa mais demorada: lixar, ajustar os furos para os olhos e só então decorar, com folha de ouro, folha de prata, tecidos nobres, penas, lantejoulas e, em ateliês mais sofisticados, até cristais.

É esse processo lento e cheio de etapas manuais que explica por que uma máscara feita à mão pode custar de algumas dezenas a várias centenas de euros, dependendo da complexidade dos detalhes, enquanto uma versão de plástico pintada industrialmente custa uma fração disso, e é bom saber diferenciar as duas antes de comprar, porque boa parte do que se vende hoje nas ruas mais turísticas de Veneza nem sequer foi produzida na Itália. O mesmo alerta vale para outro símbolo artesanal da cidade: como mostra nosso texto sobre o vidro de Murano autêntico, boa parte das réplicas baratas vendidas na própria Veneza também não passa perto de um ateliê de verdade.

O renascimento depois de quase dois séculos de silêncio

O Carnaval de Veneza como conhecemos hoje só foi oficialmente reintroduzido em 1979, depois de décadas praticamente apagado pela repressão austríaca e, mais tarde, pelas mudanças políticas do século XX. A retomada de 1980 teve um papel decisivo do diretor teatral Maurizio Scaparro, então à frente do setor de teatro da Bienal de Veneza, que ajudou a transformar a festa numa vitrine cultural. Nesse mesmo período, o escultor Amleto Sartori e depois seu filho Donato Sartori se dedicaram a recriar máscaras de teatro inspiradas na Commedia dell’Arte, elevando o ofício de simples artesanato para algo próximo da arte erudita.

Foi só a partir dos anos 1980 que a maioria dos ateliês que ainda funcionam hoje em Veneza começou a abrir as portas, tentando reconstruir um saber que quase se perdeu por completo.

Os ateliês que resistem até hoje

Entre os nomes mais conhecidos está o Ca’ Macana, fundado em 1984 no bairro de Dorsoduro, um dos que mais se aproximam do que seria um museu vivo do ofício: além de vender máscaras, oferece cursos e visitas guiadas para quem quer entender o processo de perto. O ateliê ficou conhecido internacionalmente depois que suas máscaras foram usadas no filme “De Olhos Bem Fechados”, de Stanley Kubrick, e mais tarde também apareceram em produções como “Cinquenta Tons de Cinza” e em montagens da Ópera de Viena. Parte do catálogo reproduz fielmente modelos retratados em pinturas do século XVIII de Pietro Longhi e Francesco Guardi, dois pintores que registraram cenas de Carnaval como quem fotografa o cotidiano da época.

Vitrine de ateliê em Veneza com diversas máscaras de Carnaval expostas
Vitrine de um ateliê veneziano, com máscaras de diferentes estilos expostas lado a lado (imagem ilustrativa).

Outro nome de peso é o Tragicomica, instalado na Calle dei Nomboli, bem em frente à casa onde nasceu o dramaturgo Carlo Goldoni. O diferencial desse ateliê é que o processo completo acontece ali dentro, do desenho inicial à peça finalizada, sem terceirizar etapas, algo que hoje é raro mesmo entre lojas que se apresentam como tradicionais.

O Carnaval na prática: quando ir e o que não perder

Para quem pensa em programar a viagem, vale saber que o Carnevale di Venezia segue um calendário específico ligado à Quaresma, então as datas mudam todo ano. Em 2027, a festa deve ocorrer entre 23 de janeiro e 9 de fevereiro, atravessando dois fins de semana até a terça-feira de Carnaval.

A abertura oficial costuma acontecer com o Volo della Colombina (também chamado de Volo dell’Angelo), quando uma pessoa desce por um cabo instalado entre o Campanile e o centro da Piazza San Marco, marcando o início simbólico da festa diante de milhares de pessoas. Outro evento tradicional é a Festa delle Marie, uma rememoração histórica que remonta ao ano de 943, originalmente ligada à bênção de noivas, e que hoje reúne música, jogos populares e desfiles em trajes de época. Já no encerramento, a Piazza San Marco costuma receber a Danza delle Ore, um espetáculo com fogos de artifício, concursos de máscara e música ao vivo.

Quem for visitar algum ateliê fora do período de Carnaval não deve se preocupar: a maioria funciona o ano inteiro, já que boa parte da clientela hoje é justamente de visitantes interessados em comprar uma peça de verdade ou simplesmente ver o processo de perto, longe da agitação da alta temporada de fevereiro.

Por que vale a pena procurar o ateliê certo

Para quem quer levar uma máscara de verdade, três sinais ajudam: o ateliê mostra moldes de gesso e peças em diferentes etapas de acabamento; a máscara é de papel machê ou couro (não de plástico injetado); e o vendedor sabe dizer quem fez a peça. Ateliês sérios costumam aceitar encomendas e, em alguns casos, oferecem oficinas curtas de decoração.

Planejando a visita? As informações práticas ficam no guia da Itália, atualizado com mais frequência do que este texto.

Fontes

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