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Trilhos antigos cruzando aldeias europeias

Vista aérea de viadutos de pedra da Semmeringbahn cruzando montanhas na Áustria, com trem passando

Viaduto histórico da Semmeringbahn, na Áustria, cruzando montanhas entre vales medievais (adaptada)

Algumas ferrovias europeias construídas entre meados do século XIX e o início do século XX ainda passam por cidades e vilarejos muito mais antigos que elas. Este guia reúne sete dessas linhas, da Alemanha à Romênia, com o que se vê no caminho, quanto tempo leva cada trecho e como encaixá-las num roteiro de trem. Os dados de horários e rotas foram conferidos nos sites das operadoras listados no fim do texto.

As linhas incluídas: a rede a vapor do Harz (Alemanha), a Taubertalbahn até Rothenburg ob der Tauber, o Trem Amarelo dos Pirineus a partir de Villefranche-de-Conflent, a linha Toulouse–Narbonne por Carcassonne, o eixo ferroviário da Transilvânia por Sighișoara, a Ferrovia Rética a partir de Chur e a Semmeringbahn, na Áustria.

Harz: trem a vapor entre casas enxaimel e floresta fechada

Se você já viu foto de uma locomotiva antiga soltando fumaça branca contra um fundo de pinheiros, é bem provável que fosse a Harzer Schmalspurbahnen. É uma rede de bitola estreita que ainda opera com máquinas a vapor originais, algumas datadas do início do século XX, ligando Wernigerode a Nordhausen e, na subida mais famosa, ao topo do monte Brocken.

Locomotiva a vapor de bitola estreita cruzando uma ponte em meio à floresta, soltando fumaça densa
A Harzer Schmalspurbahnen ainda roda com locomotivas a vapor originais em meio à floresta (imagem ilustrativa).

Wernigerode sozinha já vale a parada: é uma cidade de casas enxaimel coloridas do século XVI, com um castelo empoleirado numa colina acima do centro histórico. A estação fica praticamente encostada nesse casario, então dá para sair do trem e em cinco minutos estar andando por ruas de paralelepípedo sem carro nenhum por perto.

Fileira de casas enxaimel coloridas em cidade histórica alemã, no estilo das construções de Wernigerode
Casas enxaimel como as que dão as boas-vindas a quem desce do trem em Wernigerode (imagem ilustrativa).

Quem quiser ir até o Brocken precisa se planejar um pouco melhor. A subida completa dura cerca de uma hora e quarenta minutos partindo de Wernigerode, e nos fins de semana de verão e em feriados os vagões enchem rápido, então vale comprar o bilhete de manhã ou reservar assento pelo site oficial da Harzer Schmalspurbahnen com antecedência, porque ninguém quer fazer essa viagem em pé. Leve um casaco mesmo em pleno verão: o topo fica a mais de 1.100 metros de altitude, e o vento ali costuma deixar a sensação térmica bem mais baixa do que a temperatura marcada lá embaixo. Para quem prefere um passeio mais curto (e mais barato), dá para descer em Drei Annen Hohne ou Schierke, dois pontos que têm trilhas de caminhada de volta pela floresta, ótimos para quem gosta de esticar a viagem a pé.

Rothenburg ob der Tauber: o vale do Tauber por trás da muralha

Rothenburg é provavelmente a cidade murada mais fotografada da Alemanha, e por bons motivos: torres, portões e ruas de pedra que remontam ao século XIII, quase intactas. Ela é atendida pela Taubertalbahn, uma linha regional que sai de Steinach e segue o vale do rio Tauber por entre vinhedos e capelas pequenas antes de chegar à estação histórica da cidade.

O trajeto é curto, mas resolve um problema real de quem visita a região: como entrar na cidade antiga sem precisar lidar com estacionamento nem trânsito. Descendo do trem, a muralha medieval está praticamente na porta. Já dentro dos muros, as oficinas dos artesãos de Rothenburg merecem pelo menos uma tarde.

Villefranche-de-Conflent e o Trem Amarelo dos Pirineus

No sul da França, a cidadela de Villefranche-de-Conflent tem muralhas do século XVII erguidas sobre bases ainda mais antigas, e é dali que parte um dos passeios de trem mais conhecidos da região: o chamado Trem Amarelo, uma ferrovia de bitola estreita que sobe pelos Pirineus até Mont-Louis e a região da Cerdanya.

A linha foi construída no início do século XX e passa por viadutos e pontes suspensas com vista para vales onde alguns vilarejos parecem ter mudado muito pouco desde a Idade Média. É o tipo de trecho que vale reservar um dia inteiro, porque o interesse não está só no ponto de chegada, mas em cada curva do caminho.

Carcassonne: a cidadela que aparece pela janela

A Cité de Carcassonne, fortaleza medieval restaurada no século XIX e hoje Patrimônio Mundial da UNESCO, é um daqueles lugares que já surpreendem antes mesmo de você descer do trem. A linha que liga Toulouse a Narbonne é histórica, do século XIX, e em determinado ponto do trajeto a cidadela aparece no alto de uma colina, com suas torres duplas recortadas contra o céu.

Vista aérea das muralhas e torres da Cité de Carcassonne, com a cidade baixa ao fundo
Vista aérea das muralhas da Cité de Carcassonne, com a cidade baixa ao fundo (imagem ilustrativa).

A estação fica na cidade baixa, a poucos minutos a pé das muralhas. Para quem está de passagem por outras cidades do sul da França, é um desvio que compensa mesmo sendo rápido.

Sighișoara: trilhos entre torres saxãs na Transilvânia

Na Romênia, Sighișoara guarda uma das cidadelas medievais mais bem preservadas da Europa, com nove torres saxãs originais ainda de pé. A cidade fica na linha principal entre Brașov e Cluj-Napoca. Brașov e Sibiu, outras duas cidades fundadas por colonos saxões, também têm estação; Sibiu é alcançada por um ramal a partir de Mediaș/Copșa Mică.

O trecho entre Brașov e Sighișoara corta colinas da Transilvânia onde capelas pequenas e ruínas de fortificações aparecem entre as árvores, do tipo que passa despercebido para quem viaja de carro, mas que dá para notar bem devagar pela janela de um trem regional.

Chur e a Ferrovia Rética: a linha do Albula até Bergün e Filisur

Chur é considerada a cidade mais antiga da Suíça, com raízes que remontam ao período romano, e é o ponto de partida da Ferrovia Rética, famosa principalmente pelo Bernina Express e pelo Glacier Express. A maioria dos turistas embarca pensando só nas paisagens alpinas mais adiante, mas o trecho da linha do Albula entre Thusis e Bergün, a cerca de uma hora de trem de Chur, já vale a viagem: passa pelo Viaduto de Landwasser, perto de Filisur, e por vilarejos com igrejas de pedra muito antigas. Desde 2008, as linhas do Albula e do Bernina são Patrimônio Mundial da UNESCO.

Semmeringbahn: a avó de todas as ferrovias de montanha

Construída em meados do século XIX, a Semmeringbahn liga Gloggnitz a Mürzzuschlag, na Áustria, e é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1998 por causa da engenharia pioneira da época: foi uma das primeiras ferrovias de montanha do mundo. A linha passa perto de cidades pequenas como Semmering e Payerbach, onde ainda dá para ver, do alto de colinas, ruínas de castelos medievais que contrastam com os viadutos de pedra construídos décadas depois.

Um patrimônio que depende de quem viaja

Vale saber, antes de planejar a viagem, que várias dessas linhas não são exatamente lucrativas e sobrevivem com apoio de associações de preservação ferroviária e da receita do turismo. É o caso da Harzer Schmalspurbahnen, da Taubertalbahn e do Trem Amarelo dos Pirineus, que dependem desse equilíbrio para continuar operando com equipamentos históricos originais em vez de trocá-los por trens modernos sem graça. Andar nelas, de certa forma, é também ajudar a manter esse patrimônio funcionando.

Na hora de organizar o roteiro, pesquise os horários com antecedência: fora da alta temporada, muitas dessas linhas reduzem a frequência, principalmente a Semmeringbahn, a Taubertalbahn e os trechos da Ferrovia Rética que passam por Filisur e Bergün. Datas de feriado e fins de semana de verão costumam lotar rápido, então reservar assento com alguns dias de antecedência evita dor de cabeça (e, no caso da subida ao Brocken, evita passar a viagem inteira em pé).

Quando ir e como chegar

A Harzer Schmalspurbahnen funciona o ano inteiro, mas a experiência muda bastante conforme a estação. No verão, os vagões enchem de turistas e a floresta está toda verde; no outono, as cores das árvores por si só já justificam a viagem; no inverno, a neve cobre o Brocken e a locomotiva a vapor contra a paisagem branca vira quase um cartão-postal. Wernigerode é bem conectada por trens regionais a partir de Hannover e Goslar, o que facilita encaixar a ferrovia num roteiro maior pela Alemanha, sem precisar de carro alugado.

O mesmo raciocínio vale para as outras linhas deste texto: a maioria delas se conecta a estações maiores nas proximidades (Toulouse, no caso de Carcassonne; Brașov, no caso de Sighișoara; Chur, que já é parada de trens internacionais na Suíça), então dá para encaixar essas paradas dentro de um roteiro ferroviário maior, sem precisar montar uma viagem inteira só em torno delas.

Resumo para organizar o roteiro

  • Harz: a Harzer Schmalspurbahnen liga Wernigerode a Nordhausen e ao Brocken com locomotivas a vapor originais; a subida ao topo leva cerca de 1h40 e vale reservar assento com antecedência em alta temporada.
  • Rothenburg ob der Tauber: a Taubertalbahn sai de Steinach e deixa o visitante praticamente na porta da muralha medieval.
  • Villefranche-de-Conflent e Carcassonne: linhas históricas do sul da França, com trechos que cortam vales e cidadelas que aparecem de repente pela janela.
  • Por que ainda funcionam: muitas dessas ferrovias não são lucrativas por conta própria e dependem de associações de preservação e da receita do turismo para continuar operando com equipamento histórico original.

Resumo prático

Harz (Alemanha)Trem a vapor de Wernigerode ao Brocken, cerca de 1h40. Reserve no verão; leve casaco.
RothenburgTaubertalbahn a partir de Steinach.
Pirineus (França)Trem Amarelo a partir de Villefranche-de-Conflent.
SuíçaLinha do Albula: Viaduto de Landwasser e Bergün, cerca de 1h de Chur (Patrimônio Mundial desde 2008).
ÁustriaSemmeringbahn, entre Gloggnitz e Mürzzuschlag (Patrimônio Mundial desde 1998).

Fontes

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