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Casas coloridas de Colmar: como a arquitetura medieval de enxaimel sobreviveu mais de 600 anos

Fileira de casas coloridas em enxaimel em Colmar, Franca

Eu já tinha visto Colmar em quase toda lista de “cidades mais bonitas da Europa” que existe, e confesso que fiquei com pé atrás: lugar bonito demais em foto geralmente decepciona de perto. Colmar foi a exceção. Cheguei de manhã cedo, antes das lojas abrirem, virei a esquina da Rue des Marchands e as casas coloridas refletidas no canal pareciam cenário de desenho animado, só que eram de verdade, com gente morando ali dentro, roupa secando na janela e vaso de gerânio na sacada.

De onde vêm essas casas, afinal

A técnica por trás das fachadas de Colmar chama-se colombage, a mesma construção em enxaimel que aparece em boa parte do centro da Europa: uma estrutura de vigas de madeira aparente, preenchida com tijolo, gesso ou barro, erguida sem um único prego de metal, só encaixe e cavilha. O que torna Colmar rara é a quantidade de exemplares que sobreviveram praticamente intactos até hoje. A cidade escapou dos piores estragos da Revolução Francesa, da Guerra Franco-Prussiana de 1870 e das duas guerras mundiais, o que explica por que o centro histórico ainda tem construções de mais de 600 anos em pé, uma ao lado da outra.

A Maison Adolph, perto da igreja de Saint-Martin, é o prédio mais antigo da cidade, com partes datadas de 1350. Já a Maison Pfister, erguida em 1537 na esquina da Rue des Marchands com a Rue Mercière, é a mais fotografada, com sua torre octogonal, a galeria de madeira esculpida no segundo andar e afrescos originais pintados direto na fachada, retratando cenas bíblicas e imperadores do Sacro Império.

Por que as fachadas têm cores diferentes

Essa é uma das perguntas que mais aparecem sobre Colmar, e a resposta honesta é que não existe uma regra oficial documentada. Corre a ideia popular, repetida por vários guias, de que a cor indicava o ofício ou o status do morador (comerciantes ricos com tons mais nobres, artesãos com cores simples), mas isso é mais tradição oral do que fato comprovado por documentos da época. O que se sabe com certeza é que pintar as vigas e o reboco em cores vivas sempre foi um costume alsaciano. O que mudou o destino dessas fachadas foi a lei: em 1966, o centro histórico de Colmar virou secteur sauvegardé por decreto interministerial, o que blindou os prédios contra demolição e reforma descuidada, e abriu caminho para as restaurações que a cidade fez a partir das décadas de 1970 e 1980, quando bairros inteiros como o Quai de la Poissonnerie, o antigo bairro dos pescadores, foram recuperados casa por casa e repintados.

Uma curiosidade que passa batido: nem toda decoração em Colmar é sobre cor. Na Rue des Têtes, um pouco mais afastada do circuito principal, fica a Maison des Têtes, batizada assim por causa das mais de cem cabeças esculpidas em pedra na fachada, cada uma com uma expressão diferente, um contraponto às casas coloridas onde o efeito é todo em relevo e sombra.

Qual a melhor data pra visitar Colmar

Depende do que você quer ver, e a experiência muda bastante conforme a estação. Se o objetivo são as fachadas cheias de flores nas janelas, o auge é entre maio e o começo de julho, quando os gerânios tomam conta das sacadas e a temperatura fica agradável, entre 15°C e 24°C. É também a época mais cheia e mais cara da cidade, então reserve hospedagem com dois ou três meses de antecedência.

Casa com venezianas azuis e flores na varanda em Colmar

Se você prefere fotos sem gente na frente, o fim de fevereiro e o começo de março são o segredo mais bem guardado: faz frio, geralmente entre 2°C e 10°C, as flores ainda não chegaram, mas a cidade fica praticamente vazia e dá pra caminhar pela Petite Venise sem ninguém no quadro. Setembro e outubro também valem a pena, é a época das vendanges, a colheita da uva na região, quando os vinhedos ao redor da cidade ficam dourados e ainda dá pra pegar dias de sol sem o calor nem a lotação do verão.

E tem a terceira opção, que é a mais famosa de todas: o mercado de Natal. Em 2026 os mercados de Colmar abrem em 23 de novembro e vão até 29 de dezembro, espalhados por diferentes pontos da cidade, entre eles a Place de l’Ancienne Douane, a Place Jeanne d’Arc e a Place des Dominicains, cada uma com sua própria decoração e produtos, e entrada gratuita em todas. É lindo, mas também é quando Colmar fica mais lotada do ano, principalmente nos fins de semana de dezembro. Quem for nessa época, o conselho de quem já foi é visitar em dia de semana, de preferência pela manhã, e chegar antes das excursões de ônibus que costumam desembarcar depois das 10h.

A Rota do Vinho ao lado da porta de casa

Colmar fica bem no meio da Route des Vins d’Alsace, uma estrada que corta mais de 170 km de vinhedos entre pequenos vilarejos igualmente coloridos, ótimo para quem tem um dia a mais no roteiro:

  • Eguisheim (7 km ao sul): formato circular em volta do antigo castelo, percorrível a pé em cerca de 30 minutos; um dos vilarejos mais fotografados da região. Veja também nosso texto sobre os museus culturais de Eguisheim.
  • Riquewihr (13 km ao norte): preserva um castelo do século 16 e uma butique da Fortwenger, marca de pão de mel alsaciano de 1768 (fundada, na verdade, na vizinha Gertwiller, não em Riquewihr, como alguns roteiros turísticos repetem).
  • Kaysersberg (mesma direção): eleito o vilarejo mais bonito da França em 2017, numa votação popular.
  • Ribeauvillé (16 km): conhecida pelo Pfifferdaj, festival dos menestréis que remonta ao século 14, quando os músicos itinerantes da região viviam sob a proteção dos senhores de Ribeaupierre. É considerado o mais antigo festival da Alsácia, sempre no primeiro domingo de setembro, reunindo dezenas de milhares de visitantes.

Há passeios organizados saindo de Colmar, mas alugar um carro por um dia facilita se você quiser visitar mais de um vilarejo.

Casas de madeira refletidas no canal de Colmar

Petite Venise, o cartão-postal que todo mundo procura

O bairro que dá nome às fotos mais famosas de Colmar fica ao longo do rio Lauch e era conhecido antigamente como Krutenau, ocupado por comerciantes de vinho e hortelões que usavam o canal para escoar a produção até o rio Ill. Hoje dá pra atravessar a pé pelas pontes de École, Turenne e Saint-Pierre, ou alugar um passeio de barco pequeno que sai direto do canal: a operadora mais conhecida, a Sweet Narcisse, embarca na Rue de la Herse, ao pé da Pont Saint-Pierre, cobra cerca de 10 euros por adulto e 5 euros por criança, e o passeio dura por volta de 25 minutos, com o barqueiro contando um pouco da história do bairro em francês, inglês ou alemão. Funciona todos os dias entre abril e setembro, e só nos fins de semana em março e outubro.

Se você quer aquela foto clássica sem ninguém passando na frente, o horário é logo depois que o sol nasce ou já perto do fim da tarde, quando a luz fica mais dourada e a maioria dos grupos de turismo já foi embora ou ainda não chegou. Vale reservar o barco com antecedência na alta temporada, porque os lugares esgotam rápido, principalmente nos fins de semana de verão.

Passeio de barco no canal da Petite Venise em Colmar

Outros cantos que valem o desvio

Além da Petite Venise, vale caminhar pelo Quai de la Poissonnerie, o antigo bairro dos pescadores, e pelo Quartier des Tanneurs, onde ficavam os curtumes de couro nos séculos 17 e 18, reconhecível pelas casas estreitas e altas, feitas assim de propósito para que o couro secasse pendurado nos sótãos. Dentro do centro histórico está o Musée Unterlinden, instalado num antigo convento dominicano do século 13, que guarda o retábulo de Issenheim, obra-prima da pintura gótica alemã, além de peças de Renoir, Monet e Picasso. O ingresso custa em torno de 14 euros, o museu abre das 9h às 18h, com última entrada às 17h30, e fecha às terças-feiras. A Colegiada de Saint-Martin, com sua torre gótica visível de quase qualquer ponto da cidade, e o Mercado Coberto (Marché Couvert), num prédio do século 19, completam bem um roteiro a pé de um dia inteiro.

Rua estreita com casas medievais em Colmar, Franca

Comida e vinho, porque Colmar também é sobre isso

A Alsácia é a região dos brancos aromáticos, e Colmar é praticamente a capital não oficial da Rota do Vinho local: Riesling, Gewürztraminer e Pinot Gris aparecem em todo restaurante e loja de vinho da cidade, geralmente servidos nas winstubs, as tabernas tradicionais de decoração de madeira escura que funcionam como point de bairro. Pra comer, o clássico é o kougelhopf, aquele bolo em formato de coroa que também vira decoração pendurada em vitrine de padaria, além de pratos mais robustos como a tarte flambée, uma espécie de pizza fina com creme, cebola e bacon, e a choucroute, prato de chucrute com embutidos que é a herança mais alemã da cozinha alsaciana, misturada com o toque mais refinado da cozinha francesa.

Como chegar e quanto tempo reservar

De Paris, o trem de alta velocidade leva cerca de 2h30 até a estação de Colmar. Quem está em Estrasburgo tem o trajeto mais curto: cerca de 1 hora de carro pela A35, ou pouco mais de trem regional, com partidas quase a cada hora. Os aeroportos mais próximos são o de Basel-Mulhouse-Freiburg e o de Estrasburgo, ambos a cerca de uma hora do centro. A cidade em si dá pra conhecer bem em um dia inteiro, andando a pé, já que o centro histórico é compacto. Mas quem quiser incluir a Rota do Vinho e vilarejos vizinhos como Eguisheim ou Riquewihr vale reservar pelo menos dois ou três dias na região, com Colmar como base.

No fim das contas, Colmar entrega exatamente o que promete nas fotos, o que é raro. E ao contrário de outros lugares que dependem só de um mês específico pra brilhar, aqui cada estação tem seu próprio motivo pra valer a viagem: flores na primavera, vinho na colheita de outono, silêncio no fim de inverno e luzes no Natal.

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Fontes