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Técnicas agrícolas de Cinque Terre adaptadas ao relevo

Terraços e vinhedos sustentados por muros de pedra seca em Manarola, Cinque Terre
Terraços e vinhedos em Manarola, Cinque Terre. Foto: kajikawa (CC BY 3.0, via Wikimedia Commons)

As cinco vilas das Cinque Terre — Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore — ficam numa faixa de costa da Ligúria em que a montanha cai quase direto no mar. Não há planície para plantar. Mesmo assim, durante séculos, os moradores viveram de uva, oliva e limão. O que tornou isso possível foram os terraços: degraus de terra sustentados por muros de pedra seca, empilhada sem argamassa, que transformaram encostas íngremes em lavouras. Foi essa paisagem, e não só as casas coloridas, que fez a UNESCO reconhecer a região como patrimônio mundial em 1997.

Como se constrói um terraço sem cimento

A técnica do muretto a secco (muro de pedra seca) começou a se espalhar pela região por volta do século XII. As pedras retiradas do próprio terreno eram encaixadas umas nas outras, com as maiores na base e uma leve inclinação para dentro da encosta. Atrás do muro, uma camada de cascalho deixa a água da chuva escorrer. Isso é fundamental: um muro que segura água acaba cedendo com o peso. Somando todas as encostas, há milhares de quilômetros desses muros nas Cinque Terre.

Terraços de pedra sustentando vinhedos nas encostas de Manarola, Cinque Terre
Terraços de pedra em Manarola, Cinque Terre. Foto: William Domenichini (CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons)

O desenho também acompanha o sol. Repare, de qualquer trilha, que as encostas voltadas para o sul são cobertas de terraços, enquanto as voltadas para o norte ficaram com mata. Não valia o esforço de construir onde a uva não amadureceria.

Encosta da Ligúria com terraços agrícolas no lado ensolarado e mata no lado sombreado
Encosta terraceada na Ligúria, mostrando o contraste entre área cultivada e mata. Foto: LBM1948 (CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons)

O que se planta em cada degrau

  • Uva: as castas tradicionais são a Bosco, a Albarola e a Vermentino, que dão um vinho branco seco com denominação de origem Cinque Terre DOC desde 1973. A estrela local é o Sciacchetrà, vinho doce feito com uvas secas em esteiras por semanas depois da colheita. É produzido em quantidade pequena e custa caro.
  • Oliva: as oliveiras ocupam os terraços mais altos e menos íngremes, sobretudo entre Vernazza e Monterosso.
  • Limão: Monterosso tem limoeiros em hortas e terraços perto da vila e celebra a fruta todo mês de maio, na Sagra del Limone.

O trenzinho de cremalheira

Carregar a colheita encosta acima, em cestos nas costas, foi o trabalho mais pesado das Cinque Terre por séculos. A partir da década de 1980, os produtores começaram a instalar monotrilhos de cremalheira: pequenos carrinhos a motor que sobem e descem por um trilho único preso à encosta. Hoje eles estão por toda parte, e quem faz as trilhas acaba cruzando com vários. Eles não levam passageiros, só caixas de uva, ferramentas e adubo.

Monotrilho de cremalheira usado para transportar a colheita nos vinhedos em terraço das Cinque Terre
Foto: Quinn Comendant / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

O preço do abandono

Ao longo do século XX, os jovens trocaram a lavoura pelo turismo e pelo trabalho na cidade, e muitos terraços foram abandonados. Sem manutenção, os muros caem, a água corre solta e a terra desliza. Em 25 de outubro de 2011, uma tempestade provocou enchentes e deslizamentos que soterraram parte de Vernazza e Monterosso. Desde então, o Parque Nacional e cooperativas locais incentivam a recuperação dos terraços, inclusive com projetos em que pessoas de fora “adotam” um trecho de vinhedo. A Cantina Cinque Terre, cooperativa de produtores com sede em Groppo, perto de Manarola, recebe visitantes para degustação e para conhecer o processo.

Para ver de perto

Trilhas: o caminho entre Manarola e Corniglia pelo alto, passando por Volastra, atravessa os vinhedos em terraço, longe do movimento do Sentiero Azzurro, a trilha do litoral. As trilhas do Parque Nacional exigem o Cinque Terre Card Trekking, de cerca de €7,50 por dia. A Via dell’Amore, entre Riomaggiore e Manarola, reabriu e exige reserva e ingresso à parte, de cerca de €10.

Trem: a forma mais simples de ir de uma vila a outra é o trem regional entre La Spezia e Levanto. O Cinque Terre Card Treno inclui trens ilimitados, trilhas e ônibus do parque. O preço varia conforme a demanda do dia e chega a €32,50 na alta temporada.

Chegando do Brasil: não há voo direto para a Ligúria. O caminho mais comum é voar até Milão ou Roma, ou fazer conexão na Europa até Pisa. De Pisa, o trem chega a La Spezia em cerca de 1 hora. De Milão, leva cerca de 3 horas. Brasileiros entram na Itália sem visto por até 90 dias.

Época da colheita

Quem quer ver a lavoura em ação deve ir no fim de setembro ou no começo de outubro, época da vendemmia (colheita da uva). Os monotrilhos não param e as vilas cheiram a mosto. Maio tem a festa do limão e um clima ótimo para trilhas. Julho e agosto, nas férias brasileiras, são os meses mais quentes e cheios: as trilhas ficam lotadas e o calor é forte nas encostas sem sombra. Se for nessa época, caminhe antes das 10h.

Transporte, melhor época e documentos para a viagem estão reunidos no guia da Itália.

Fontes

Valores revisados em outubro de 2026. Os preços do cartão variam conforme a data.

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