
As cinco vilas das Cinque Terre — Monterosso, Vernazza, Corniglia, Manarola e Riomaggiore — ficam numa faixa de costa da Ligúria em que a montanha cai quase direto no mar. Não há planície para plantar. Mesmo assim, durante séculos, os moradores viveram de uva, oliva e limão. O que tornou isso possível foram os terraços: degraus de terra sustentados por muros de pedra seca, empilhada sem argamassa, que transformaram encostas íngremes em lavouras. Foi essa paisagem, e não só as casas coloridas, que fez a UNESCO reconhecer a região como patrimônio mundial em 1997.
Como se constrói um terraço sem cimento
A técnica do muretto a secco (muro de pedra seca) começou a se espalhar pela região por volta do século XII. As pedras retiradas do próprio terreno eram encaixadas umas nas outras, com as maiores na base e uma leve inclinação para dentro da encosta. Atrás do muro, uma camada de cascalho deixa a água da chuva escorrer. Isso é fundamental: um muro que segura água acaba cedendo com o peso. Somando todas as encostas, há milhares de quilômetros desses muros nas Cinque Terre.

O desenho também acompanha o sol. Repare, de qualquer trilha, que as encostas voltadas para o sul são cobertas de terraços, enquanto as voltadas para o norte ficaram com mata. Não valia o esforço de construir onde a uva não amadureceria.

O que se planta em cada degrau
- Uva: as castas tradicionais são a Bosco, a Albarola e a Vermentino, que dão um vinho branco seco com denominação de origem Cinque Terre DOC desde 1973. A estrela local é o Sciacchetrà, vinho doce feito com uvas secas em esteiras por semanas depois da colheita. É produzido em quantidade pequena e custa caro.
- Oliva: as oliveiras ocupam os terraços mais altos e menos íngremes, sobretudo entre Vernazza e Monterosso.
- Limão: Monterosso tem limoeiros em hortas e terraços perto da vila e celebra a fruta todo mês de maio, na Sagra del Limone.
O trenzinho de cremalheira
Carregar a colheita encosta acima, em cestos nas costas, foi o trabalho mais pesado das Cinque Terre por séculos. A partir da década de 1980, os produtores começaram a instalar monotrilhos de cremalheira: pequenos carrinhos a motor que sobem e descem por um trilho único preso à encosta. Hoje eles estão por toda parte, e quem faz as trilhas acaba cruzando com vários. Eles não levam passageiros, só caixas de uva, ferramentas e adubo.

O preço do abandono
Ao longo do século XX, os jovens trocaram a lavoura pelo turismo e pelo trabalho na cidade, e muitos terraços foram abandonados. Sem manutenção, os muros caem, a água corre solta e a terra desliza. Em 25 de outubro de 2011, uma tempestade provocou enchentes e deslizamentos que soterraram parte de Vernazza e Monterosso. Desde então, o Parque Nacional e cooperativas locais incentivam a recuperação dos terraços, inclusive com projetos em que pessoas de fora “adotam” um trecho de vinhedo. A Cantina Cinque Terre, cooperativa de produtores com sede em Groppo, perto de Manarola, recebe visitantes para degustação e para conhecer o processo.
Para ver de perto
Trilhas: o caminho entre Manarola e Corniglia pelo alto, passando por Volastra, atravessa os vinhedos em terraço, longe do movimento do Sentiero Azzurro, a trilha do litoral. As trilhas do Parque Nacional exigem o Cinque Terre Card Trekking, de cerca de €7,50 por dia. A Via dell’Amore, entre Riomaggiore e Manarola, reabriu e exige reserva e ingresso à parte, de cerca de €10.
Trem: a forma mais simples de ir de uma vila a outra é o trem regional entre La Spezia e Levanto. O Cinque Terre Card Treno inclui trens ilimitados, trilhas e ônibus do parque. O preço varia conforme a demanda do dia e chega a €32,50 na alta temporada.
Chegando do Brasil: não há voo direto para a Ligúria. O caminho mais comum é voar até Milão ou Roma, ou fazer conexão na Europa até Pisa. De Pisa, o trem chega a La Spezia em cerca de 1 hora. De Milão, leva cerca de 3 horas. Brasileiros entram na Itália sem visto por até 90 dias.
Época da colheita
Quem quer ver a lavoura em ação deve ir no fim de setembro ou no começo de outubro, época da vendemmia (colheita da uva). Os monotrilhos não param e as vilas cheiram a mosto. Maio tem a festa do limão e um clima ótimo para trilhas. Julho e agosto, nas férias brasileiras, são os meses mais quentes e cheios: as trilhas ficam lotadas e o calor é forte nas encostas sem sombra. Se for nessa época, caminhe antes das 10h.
Transporte, melhor época e documentos para a viagem estão reunidos no guia da Itália.
Fontes
- Parco Nazionale delle Cinque Terre: Cinque Terre Train Card
- La Spezia Guide: Cinque Terre Card 2026, opções e preços
- Via dell’Amore: Tickets
- UNESCO: Portovenere, Cinque Terre, and the Islands
Valores revisados em outubro de 2026. Os preços do cartão variam conforme a data.
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Helena Nascimento é formada em História e mora no interior de São Paulo, em uma cidade turística. No lunova3, pesquisa a história de vilarejos, castelos e tradições da Europa e organiza guias em português para quem está planejando uma viagem, com fontes oficiais citadas e dados conferidos.