Pular para o conteúdo

Músicas medievais tocadas no Castelo de Wartburg

Instrumento da família do alaúde, feito em 1450 e hoje exposto no Castelo de Wartburg, na Alemanha (adaptada)

Antes de existir imprensa, e muito antes da maior parte da população saber ler, eram as músicas medievais que carregavam as notícias, os costumes e as histórias de uma comunidade para outra. Uma canção bem composta viajava mais rápido, e durava mais, do que qualquer aviso escrito. Boa parte desse repertório medieval se perdeu com o tempo, mas uma parte considerável sobreviveu, guardada em manuscritos de mosteiros e bibliotecas, e hoje pode ser ouvida ao vivo em festivais especializados por toda a Europa.

Como essa música chegou até hoje

Durante a Idade Média, menestréis e trovadores tinham espaço garantido em celebrações públicas, feiras, casamentos e festas sazonais. Como grande parte da população não sabia escrever nem ler, as canções funcionavam como um jeito de guardar acontecimentos e narrativas na memória coletiva, quase um noticiário cantado, passado de geração em geração.

Dois manuscritos merecem destaque especial nessa história de sobrevivência: o Carmina Burana, coleção de poemas e canções copiada no século XIII e preservada na abadia de Benediktbeuern, na Baviera, e as Cantigas de Santa Maria, mais de quatrocentas composições reunidas na corte do rei Afonso X de Castela, também no século XIII. Uma das versões desse segundo manuscrito, conhecida como Códice Rico, guardada no mosteiro de El Escorial, na Espanha, reúne 195 dessas canções acompanhadas de miniaturas coloridas, com até doze ilustrações por composição, e boa parte delas mostra dupla de músicos tocando instrumentos lado a lado, o que torna esse manuscrito uma das fontes visuais mais valiosas que existem para reconstruir como esses instrumentos medievais realmente eram tocados. Sem esses documentos, com sua notação musical original, essas melodias simplesmente não existiriam mais para ninguém ouvir. E existe gente dedicando a carreira inteira a essa reconstrução: o grupo Hespèrion XXI, fundado em 1974 na Suíça pelo músico catalão Jordi Savall, é hoje uma das referências mundiais em interpretar música europeia anterior ao período barroco usando instrumentos de época.

O Carmina Burana, aliás, teve um destino inesperado no século XX: em 1934, o compositor alemão Carl Orff conheceu uma edição acadêmica de 1847 desses poemas medievais e, com a ajuda do estudante de direito Michel Hofmann, selecionou 24 deles, escritos em latim, alto-alemão médio e francês antigo, para transformar numa cantata cênica. A obra estreou em 8 de junho de 1937, na Ópera de Frankfurt, e Orff considerou o resultado tão definitivo que chegou a pedir à sua editora que destruísse tudo o que havia composto antes. O trecho de abertura, “O Fortuna”, hoje aparece com tanta frequência em filmes, comerciais e até competições esportivas que se tornou uma das peças de música clássica mais reconhecidas do mundo, embora poucas pessoas que a ouvem saibam que a letra é, na verdade, um poema goliardo do século XIII sobre a roda da sorte, ilustrado no próprio manuscrito original que hoje fica guardado na Biblioteca Estatal da Baviera, em Munique.

Página do manuscrito original do Carmina Burana, de cerca de 1230, com a ilustração da Roda da Fortuna

A Roda da Fortuna ilustrada no manuscrito original do Carmina Burana, cerca de 1230, hoje na Biblioteca Estatal da Baviera. Domínio público / Wikimedia Commons

Os instrumentos que valem prestar atenção

O alaúde é, para mim, o mais bonito de ver ao vivo, corpo arredondado, cordas dedilhadas, som suave que dificilmente soa “antigo” mesmo depois de tantos séculos. Já a viela de roda é o oposto: funciona com uma manivela girando uma roda de madeira contra as cordas, um mecanismo estranho de assistir de perto e que costuma roubar a atenção do público em qualquer demonstração ao vivo. Completam esse conjunto a harpa românica, o saltério, a viela de arco, a charamela e variações de flauta de madeira, boa parte reproduzida hoje por artesãos especializados a partir de manuscritos ilustrados e peças originais.

Vale lembrar que esses instrumentos quase nunca tocavam sozinhos: cordas como o alaúde costumavam se juntar a sopros como a charamela e a uma percussão simples, formando pequenos conjuntos que acompanhavam cantores ou grupos de dança. E, diferente dos instrumentos modernos padronizados, muitos não tinham trastes fixos nem afinação estável, o que exigia dos músicos um domínio técnico que hoje seria considerado bem avançado.

Onde ouvir isso ao vivo

Na Inglaterra, o York Early Music Festival acontece todo mês de julho desde 1977, com apresentações dentro da catedral de York Minster, a acústica do lugar por si só já justifica a viagem. Na França, o Festival de Ambronay ocorre em outubro dentro da abadia beneditina de Notre-Dame d’Ambronay, conhecida por uma acústica peculiar que músicos especializados adoram explorar. Os dois reúnem pesquisadores musicológicos que tocam réplicas fiéis de instrumentos históricos, então não é só “ambientação medieval”, é reconstrução séria de sonoridades que, de outro jeito, ficariam restritas a manuscritos acadêmicos.

Fora dos grandes festivais, cidades históricas menores também promovem apresentações mais soltas durante feiras medievais, com grupos de recriação tocando réplicas em praças, muralhas e pátios de castelo. É mais informal, sim, mas tem sua graça: costuma ser o primeiro contato de muita gente com esse repertório, sem precisar viajar até um festival especializado. Nenhuma dessas apresentações, informais ou não, seria possível sem o trabalho de décadas de musicólogos debruçados sobre manuscritos como o Carmina Burana e as Cantigas de Santa Maria, decifrando uma notação musical que, ao contrário da atual, não indicava com precisão o ritmo das peças, o que obriga cada grupo de reconstrução histórica a tomar decisões interpretativas próprias sobre como essas melodias soavam de fato.

Menestréis e jograis: nem todo músico itinerante era igual

Vale separar essas duas figuras, porque costumam ser confundidas. Os menestréis geralmente tinham a proteção de nobres e reis, recebendo hospedagem e pagamento em troca de entretenimento, e, na prática, também divulgação dos feitos de seus patronos. Já os jograis eram mais populares, circulavam por vilarejos e feiras livres misturando música, malabarismo e teatro para um público bem mais variado. Os dois, cada um a seu modo, ajudaram a manter viva a memória de acontecimentos que, sem registro escrito, dependiam inteiramente de serem cantados e recontados.

Se você já visitou algum museu pequeno de vilarejo medieval e viu instrumentos antigos numa vitrine, essa música é o outro lado da mesma moeda: o objeto guardado versus o som que ele produzia. Vale a pena buscar as duas experiências, ver o instrumento parado e, quando possível, ouvir uma réplica tocando ao vivo. A diferença é grande.

Do trovador solitário às apresentações em grupo

Essa tradição musical não nasceu com grupos organizados: ela remonta à figura do trovador esquecido, o músico ambulante que encantava os vilarejos medievais viajando sozinho ou em pequenas duplas, levando notícias e canções de aldeia em aldeia antes de qualquer formato de espetáculo em grupo existir.

Hoje, essa música quase sempre aparece ao lado de outras manifestações culturais, especialmente durante danças e celebrações medievais que ainda acontecem em vilarejos europeus, quando grupos de música e dança se apresentam juntos, recriando o ambiente sonoro completo de uma festa de aldeia da Idade Média.

Visitando o Castelo de Wartburg

O Castelo de Wartburg, que dá nome a este texto, deve sua fama musical à lenda do Sängerkrieg, o torneio de trovadores que teria acontecido em seu salão principal no início do século XIII e que, séculos depois, inspirou a ópera Tannhäuser, de Richard Wagner. O castelo fica em uma colina acima da cidade de Eisenach, na Turíngia, também conhecida como cidade natal de Johann Sebastian Bach, e a subida a pé desde o centro histórico leva cerca de 20 a 30 minutos por uma trilha íngreme, embora exista também um serviço de van que sobe até perto da entrada para quem prefere não caminhar. Eisenach fica a pouco mais de duas horas de trem partindo de Frankfurt, o que permite visitar o castelo, incluindo o quarto onde Martinho Lutero traduziu o Novo Testamento, e ainda voltar no mesmo dia.

A lenda por trás do Sängerkrieg é ainda mais colorida do que costuma aparecer nos folhetos turísticos. Segundo uma inscrição do próprio castelo, o torneio teria ocorrido em 7 de julho de 1207, reunindo trovadores históricos como Wolfram von Eschenbach e Walther von der Vogelweide ao lado de figuras semilendárias como Heinrich von Ofterdingen e o feiticeiro Klingsor da Hungria. Na primeira etapa, seis menestréis disputavam quem melhor cantava louvores a seu príncipe protetor, disputa vencida por Ofterdingen, que depois precisou fugir da vingança dos rivais e buscar ajuda mágica com Klingsor. Numa segunda etapa, um duelo poético entre Wolfram e Klingsor terminaria com a vitória dos hinos cristãos do primeiro sobre a assistência demoníaca invocada pelo segundo. Historiadores debatem a autenticidade da história desde o século XIX, já que nenhum manuscrito contemporâneo ao suposto ano de 1207 sobreviveu, apenas versões escritas décadas depois, entre 1240 e 1260, mas a lenda se firmou o bastante para inspirar diretamente a ópera “Tannhäuser”, de Richard Wagner, em 1845.

Vista do Castelo de Wartburg, na Turíngia, palco da lendária disputa de trovadores de 1207

O Castelo de Wartburg, em Eisenach, na Turíngia, palco da lendária disputa de trovadores que inspirou a ópera Tannhäuser de Wagner. Foto: A.Savin / Wikimedia Commons, Free Art License