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Por Que as Muralhas de Óbidos e Ávila Resistem Depois de 800 Anos

Muralhas e torres da Cidade Medieval de Carcassonne, na França. Foto: Alain Bonnardeaux/Unsplash (adaptada)

Existe uma diferença entre ver uma muralha em foto e caminhar sobre ela, sentindo a espessura da pedra sob os pés. Em algumas vilas da Europa, essa experiência ainda é possível quase da mesma forma que há setecentos ou oitocentos anos. Reunimos oito desses lugares, com o que vale saber antes de visitar cada um: como chegar, melhor época, quanto tempo reservar e o que conhecer por perto, além de um detalhe histórico que costuma passar despercebido.

Óbidos, Portugal: a muralha que se anda em círculo em menos de uma hora

Muralha medieval de Óbidos vista de cima, com telhados de telha vermelha da vila

Muralha de Óbidos, Portugal. Foto: Alvesgaspar/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Diferente de cidades maiores, em Óbidos é possível completar a volta inteira sobre o adarve, o caminho de ronda no topo do muro, em cerca de 40 minutos, com vista simultânea para os telhados de telha vermelha da vila e para os campos ao redor. O trecho não tem corrimão em boa parte do percurso, o que exige atenção redobrada com crianças ou em dias de chuva. A vila fica a pouco mais de uma hora de carro ou ônibus a partir de Lisboa, o que torna a visita um bate volta tranquilo. Um dia inteiro é suficiente para caminhar pela muralha, percorrer as ruas de pedra e provar a ginjinha servida em copinho de chocolate, mas quem tem mais tempo pode aproveitar para conhecer Nazaré e o Mosteiro de Alcobaça, a menos de meia hora de distância. Outubro, durante o Mercado Medieval, é quando a vila mais se aproxima visualmente do que era no século XIV, embora também seja o período com mais visitantes.

Monteriggioni, Itália: a muralha que Dante mencionou

Panorama da muralha circular de Monteriggioni, na Toscana

Muralha circular de Monteriggioni, Itália. Foto: WikiRomaWiki/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O formato quase perfeitamente circular chama atenção de longe, mas o dado curioso é literário. Dante Alighieri comparou as torres de Monteriggioni aos gigantes do oitavo círculo do Inferno, na Divina Comédia. A vila inteira cabe dentro do perímetro fortificado e é possível visitá-la a pé em pouco mais de uma hora, o que a torna uma parada rápida para quem viaja de carro entre Siena e Florença. Primavera e início do outono são as melhores épocas, com temperatura amena para caminhar pelas ruas de paralelepípedo e menos ônibus de turismo do que em pleno verão. Como fica a cerca de 15 minutos de Siena, dá para combinar as duas visitas no mesmo dia, reservando a manhã para a muralha e a tarde para a Piazza del Campo.

Aigues-Mortes, França: a cidade planejada para embarcar cruzados

Muralha de Aigues-Mortes ao entardecer, com as salinas ao redor

Muralha de Aigues-Mortes ao entardecer, França. Foto: Benjamin Smith/Wikimedia Commons (CC BY-SA)

Diferente da maioria das cidades medievais, que cresceram de forma orgânica, Aigues Mortes foi projetada em traçado quadriculado no século XIII pelo rei Luís IX, como porto de partida para as Cruzadas. Hoje fica a poucos quilômetros da costa, já que o litoral avançou ao longo dos séculos, cercada por salinas rosadas que valem o desvio, especialmente ao entardecer, quando a luz reflete na água salgada. A cidade fica a cerca de 40 minutos de carro de Montpellier e pode ser visitada em meio período, tempo suficiente para subir na Torre de Constance e circular a pé por todo o perímetro fortificado. Vale reservar o fim de tarde para caminhar junto às salinas, quando a luz fica rosada e os turistas de ônibus já foram embora.

Lugo, Espanha: a única muralha romana totalmente preservada

Trecho da muralha romana de Lugo, na Galícia

Muralha romana de Lugo, Espanha. Foto: Lala Lugo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

É a única muralha de origem romana no mundo que permanece intacta em todo o seu perímetro, reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Mundial. Tem cerca de 2 km de extensão e pode ser percorrida de ponta a ponta gratuitamente, sem bilhete ou horário fixo, um contraste com outras muralhas da lista, que cobram entrada. Lugo fica a pouco mais de uma hora de carro ou trem de Santiago de Compostela, o que facilita incluir a cidade em uma viagem pela Galícia. Duas ou três horas bastam para completar a volta inteira sobre o adarve e visitar a catedral no centro histórico, mas quem gosta de gastronomia pode ficar até o fim da tarde para experimentar um pulpo à feira em algum dos bares perto da muralha.

Nördlingen, Alemanha: a cidade dentro de uma cratera de meteorito

Anel de muralhas medievais de Nördlingen, na Alemanha

Anel de muralhas de Nördlingen, Alemanha. Foto: Wikimedia Commons (domínio público)

O centro histórico foi construído dentro da Cratera de Ries, formada por um impacto de meteorito há cerca de 15 milhões de anos. Cientistas só confirmaram a origem cósmica da cratera na década de 1960. Antes disso, acreditava se que fosse de origem vulcânica. A torre de St. Georg, no centro da vila, pode ser escalada e oferece vista de todo o anel de muralhas. Nördlingen fica na Rota Romântica alemã, entre Rothenburg ob der Tauber e Augsburgo, e é bem servida por trem regional a partir de Munique. Meio dia é suficiente para subir a torre, caminhar pelo anel completo de muralhas em cerca de uma hora e passear pelo centro histórico. Primavera e início do outono são boas épocas para visitar, com temperatura agradável e menos aglomeração do que no verão.

Conwy, País de Gales: muralha e castelo como um único sistema militar

Muralha medieval de Conwy junto ao castelo, no País de Gales

Muralha de Conwy, País de Gales. Foto: David Dixon/Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Construído por ordem de Eduardo I no fim do século XIII, o conjunto de Conwy foi desenhado para que castelo e muralha funcionassem como uma peça só de defesa, não como estruturas separadas. É possível comprar um bilhete combinado para castelo e muralhas, e o trecho junto ao rio Conwy costuma ter menos turistas que o restante do percurso. A cidade tem estação de trem própria, com conexão direta a Chester e Llandudno, o que facilita a visita sem carro. Um dia completo permite conhecer o castelo, caminhar pelos 1,3 km de muralha e ainda visitar a casa mais estreita da Grã Bretanha, a poucos passos dali. Quem tem mais tempo pode seguir viagem até o Parque Nacional de Snowdonia, a menos de uma hora de distância.

Ávila, Espanha: a mais completa da Península Ibérica

Muralha medieval de Ávila com suas torres semicirculares

Muralha de Ávila, Espanha. Foto: Arturormk/Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Com 2,5 km e 88 torres semicirculares, é considerada a muralha medieval mais bem preservada da Espanha. O trecho aberto à visitação, que é pago, cobre pouco mais de 1,5 km, e a caminhada completa sobre o adarve leva cerca de uma hora. O melhor horário para fotos é o fim da tarde, quando o sol baixo ilumina a pedra dourada característica da cidade.

Carcassonne, França: a restauração que também gera debate

A Cidade Medieval de Carcassonne, com suas duas linhas de muralhas e mais de 50 torres, foi restaurada no século XIX pelo arquiteto Eugène Viollet-le-Duc, um trabalho elogiado por salvar a estrutura da ruína, mas também criticado por historiadores por adicionar telhados cônicos inspirados em castelos do norte da França, sem comprovação de que existiam ali originalmente. É um bom exemplo de como restauração e invenção histórica às vezes se misturam. Carcassonne tem estação de trem própria, com ligação direta a Toulouse em pouco mais de 50 minutos, e um dia inteiro é o ideal para explorar as duas linhas de muralhas, o castelo condal e as ruelas da cidade murada sem pressa. Passar uma noite hospedado dentro da cidadela, algo possível em algumas pousadas locais, permite ver o lugar sem as multidões diurnas, logo depois do fechamento dos portões para os visitantes de um dia.

Por que isso importa hoje

Essas muralhas não são apenas cenário. Elas moldaram como as cidades cresceram, limitaram onde ruas e mercados podiam existir, e ainda hoje explicam por que tantos centros históricos europeus são compactos e caminháveis. Programas de preservação em Portugal, Espanha, França, Itália e Alemanha seguem restaurando trechos danificados pelo turismo e pelo clima, o que significa que parte do que se vê hoje pode mudar, para melhor, nas próximas visitas.

Onde a muralha termina, o portão começa

Toda muralha precisava de pontos de passagem controlados, e é aí que entram os portões antigos preservados em vilarejos europeus, projetados como o elo mais vulnerável e, por isso, mais fortificado de todo o perímetro defensivo. Em cidades como Óbidos e Ávila, ainda é possível ver claramente como esses portões se encaixavam na estrutura contínua da muralha.

Em vários casos, esse sistema defensivo se estendia ainda mais, incorporando um castelo medieval bem preservado como ponto central de comando, tal como em Conwy, no País de Gales, onde muralha e castelo foram projetados como uma única peça militar. Entender essa integração ajuda a explicar por que essas fortificações resistiram tão bem ao longo dos séculos.

Um roteiro para ver mais de uma muralha na mesma viagem

Como essas oito muralhas ficam em países diferentes, dificilmente cabem numa única viagem, mas dá para agrupá las por região. Quem vai a Portugal e Espanha pode unir Óbidos e Ávila numa mesma rota, já que as duas capitais têm voos diretos frequentes entre si e Ávila fica a poucas horas de carro da fronteira portuguesa. Na França, Aigues Mortes e Carcassonne ficam a cerca de duas horas e meia de carro uma da outra, com Nîmes e Montpellier funcionando como bons pontos de apoio no caminho. Quem prefere reunir Itália e Alemanha numa viagem maior pela Europa Central pode incluir Monteriggioni como parada de um dia a caminho de Roma e Nördlingen como parte de um roteiro pela Baviera. Lugo e Conwy, mais isolados geograficamente, costumam funcionar melhor como destino principal de uma viagem à Galícia ou ao País de Gales do que como parada rápida.

Como chegar a Ávila

Ávila, cidade que também dá nome a este texto, fica a menos de uma hora e meia de trem partindo de Madrid, o que a torna um dos bate voltas mais fáceis de organizar a partir da capital espanhola. Como o trecho pago da muralha é relativamente curto, pouco mais de 1,5 km, dá para combinar a caminhada sobre as pedras com uma visita à Catedral de Ávila, que funciona literalmente como parte da própria fortificação, e ainda sobrar tempo à tarde para provar as famosas yemas de Santa Teresa, doce típico da cidade vendido em confeitarias perto da muralha.