Pular para o conteúdo

Quatro receitas da Idade Média servidas até hoje

Lebkuchen de Nuremberg expostos em vitrine de confeitaria

Quase nada do que se comia na Idade Média chegou intacto até hoje. Os ingredientes mudaram, o gosto mudou, e o açúcar, que era um luxo, virou coisa comum. Algumas receitas, porém, foram protegidas por corporações de ofício, conventos ou leis municipais e continuam sendo feitas de forma parecida, no mesmo lugar. Estas quatro dá para provar na própria cidade de origem, e cada uma tem uma regra antiga por trás.

1. Rostbratwurst, Nuremberg

O que é: uma linguiça de porco fina e curta, temperada com manjerona, grelhada sobre fogo de lenha de faia.

A regra antiga: o conselho de Nuremberg regulava o trabalho dos açougueiros desde a Idade Média, definindo o que podia ou não entrar na linguiça. A tradição local diz que o tamanho pequeno vem de uma dessas regras ou da necessidade de passar a linguiça pelo buraco da fechadura das tavernas depois do toque de recolher. É lenda, mas a cidade gosta de contar. Hoje a Nürnberger Rostbratwurst tem indicação geográfica protegida pela União Europeia: só pode levar esse nome se for feita dentro dos limites da cidade e seguir a receita definida, com 7 a 9 cm e 20 a 25 g.

Três salsichas Rostbratwurst de Nuremberg servidas dentro de um pão, o tradicional Drei im Weggla
Foto: User:Jarlhelm / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0

Como pedir: nas barracas da cidade velha, peça Drei im Weggla, três linguiças dentro de um pão. Nos restaurantes tradicionais, elas vêm em pratos de estanho, em porções de 6, 8 ou 12, com chucrute ou salada de batata. É uma das refeições mais baratas da cidade.

2. Lebkuchen, Nuremberg

O que é: um biscoito macio de especiarias, mel e oleaginosas, assado sobre uma hóstia fina (Oblate), às vezes coberto de chocolate ou glacê.

A regra antiga: Nuremberg ficava no cruzamento de rotas comerciais por onde chegavam as especiarias do Oriente, e as florestas em volta forneciam mel em quantidade. Os monges da região já faziam pães de mel no fim da Idade Média, e a cidade chegou a ter uma corporação própria de padeiros de Lebkuchen. Hoje o Nürnberger Lebkuchen também tem indicação geográfica protegida. A versão mais fina, a Elisenlebkuchen, leva pouquíssima farinha e muita amêndoa ou avelã.

Lebkuchen de Nuremberg, biscoitos de especiarias com cobertura de chocolate e glacê
Foto: usuário do Flickr / Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0

Onde provar: as confeitarias da cidade velha vendem o ano todo, mas é no Christkindlesmarkt, o mercado de Natal, de fim de novembro até 24 de dezembro, que o Lebkuchen está em todo lugar. Nuremberg fica a pouco mais de 1 hora de trem de Munique.

3. Panforte, Siena

O que é: um bolo denso e baixo de frutas cristalizadas, amêndoas, mel e especiarias, cortado em fatias finas.

A regra antiga: há registros, no começo do século XIII, de um tributo pago ao mosteiro de Montecellesi, perto de Siena, com pães de mel e pimenta, os panes piperati. Desse pão apimentado vem o panpepato, a versão mais escura e picante, que muitos sienenses ainda preferem. A versão mais clara e doce, o Panforte Margherita, foi criada em 1879 em homenagem à rainha Margarida da Itália, que visitou a cidade. Hoje o Panforte di Siena tem indicação geográfica protegida.

Panforte e panpepato à venda numa confeitaria de Siena
Foto: GodeNehler / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Onde provar: confeitarias tradicionais do centro de Siena vendem o panforte em fatias ou em discos inteiros embrulhados em papel, que aguentam bem a viagem de volta ao Brasil. De Florença, o ônibus direto leva cerca de 1h15 até Siena.

4. Mazapán, Toledo

O que é: massa de amêndoa moída com açúcar, moldada em figurinhas e assada levemente até dourar por cima.

A regra antiga: a tradição de Toledo atribui o doce às freiras do convento de San Clemente, que teriam feito o pão de amêndoa durante uma época de fome, por volta de 1212. A história exata não pode ser comprovada, mas a técnica de moer amêndoa com açúcar tem origem na Península Ibérica muçulmana, e Toledo foi uma das grandes cidades dessa cultura. O Mazapán de Toledo tem indicação geográfica protegida.

Ilustração de 1897 mostrando a embalagem do mazapán de Toledo
Foto: Federico Latorre y Rodrigo / Wikimedia Commons, Public domain

Onde provar: alguns conventos de clausura da cidade ainda vendem doces feitos pelas freiras através de um torno, uma roda giratória na parede: você deixa o dinheiro e recebe a caixa sem ver quem está do outro lado. As confeitarias tradicionais do centro também vendem. Toledo fica a 33 minutos de trem de alta velocidade de Madri, que tem voos diretos de São Paulo.

Levar na mala

Os doces (Lebkuchen, panforte e mazapán) duram semanas e podem ser trazidos ao Brasil como bagagem, desde que industrializados e lacrados. Já a linguiça de Nuremberg é produto de origem animal e não deve entrar na mala: produtos de carne sem certificação podem ser apreendidos pela fiscalização agropecuária no desembarque. Deixe para comer por lá.

Época: o Natal (dezembro) é a melhor data para Nuremberg e Toledo, pela quantidade de doces sazonais. Siena tem panforte o ano todo.

Planejando a visita? As informações práticas ficam no índice de guias por país, atualizado com mais frequência do que este texto.

Fontes

Leia também: Lendas populares guardadas por velhos burgos · Trilhos antigos cruzando aldeias europeias