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Cidades pouco exploradas como Besalú e Třebíč

Ponte medieval de Besalú, Espanha. Foto: Mikipons / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0 (adaptada)

Vale a pena trocar Praga por Třebíč, ou Girona por Besalú? A resposta curta é sim, e o motivo é simples: essas cidades guardam praticamente o mesmo nível de história e arquitetura preservada dos destinos mais famosos da Europa, só que sem fila, sem preço inflado e sem multidão disputando a mesma foto na mesma esquina.

A parte prática também assusta menos do que parece. Nenhuma das sete cidades desta lista é isolada de verdade: todas têm trem, ônibus ou balsa até o centro histórico, a maioria pede meio dia ou um dia inteiro de visita, e a melhor época costuma coincidir com a primavera e o início do outono europeu, entre abril e junho ou entre setembro e outubro, quando o clima ajuda e o fluxo de turistas ainda está baixo. São vilarejos pequenos, de poucos milhares de habitantes, com índices de criminalidade bem abaixo da média das capitais vizinhas, então os cuidados básicos de qualquer viagem à Europa já bastam. Hospedagem e restaurantes dentro dos muros costumam ser escassos, e a estratégia mais comum, e também a mais barata, é dormir na cidade grande mais próxima (Girona, Colmar, Siena, Brno, Estocolmo ou Paris) e visitar como bate e volta.

Antes de entrar na história de cada cidade, o resumo abaixo ajuda a decidir por onde começar.

Resumo rápido: quando ir, quanto tempo reservar e como chegar

CidadePaísMelhor épocaTempo recomendadoComo chegarOnde ficar
BesalúEspanhaAbril a junho, setembro e outubroMeio diaTrem até Girona (40 min de Barcelona) + ônibus ou carro (35 min)Girona
EguisheimFrança (Alsácia)Abril a junho, ou dezembro (mercado de Natal)2 a 3 horasPoucos minutos de carro ou ônibus de ColmarColmar
MonteriggioniItália (Toscana)Abril a junho, setembro e outubro1 a 2 horas15 minutos de carro de SienaSiena
TřebíčRepública TchecaMaio a setembroDia inteiroTrem até Brno (2h30 de Praga) + trem regional (quase 1h)Brno
VisbySuécia (Gotland)Junho a agostoDia inteiro ou com pernoiteBalsa de cerca de 3h a partir de Nynäshamn, perto de EstocolmoVisby, ou Estocolmo antes da balsa
ProvinsFrançaAbril a outubroDia inteiroTrem direto de Paris, Gare de l’Est, 1h20Dá para ir e voltar no mesmo dia partindo de Paris
SighișoaraRomêniaMaio a setembro, julho para o festivalDia inteiro ou com pernoiteTrem direto de Bucareste, mais de 6 horasDentro da própria cidadela, dado o deslocamento longo

Besalú, Espanha

Besalú, na Catalunha, foi capital de um condado independente entre os séculos IX e XII, período em que reuniu boa parte do patrimônio que ainda a define. A cidade é atravessada por uma ponte românica do século XI, reconstruída no início do século XIV sob o rei Jaime II e sustentada por sete arcos irregulares, com um pedágio medieval no meio do trajeto que ainda existe fisicamente na estrutura. Ao lado da ponte, o antigo call jueu (bairro judeu) é considerado um dos conjuntos medievais judaicos mais bem preservados da Espanha: foi ali que, em 1964, uma reforma revelou o miqvé do século XII enterrado sob uma construção posterior, hoje o único banho ritual judaico medieval preservado no país. No alto da cidade fica o mosteiro beneditino de Sant Pere, do final do século X. Com menos de 2.500 habitantes, Besalú não costuma aparecer nos roteiros padrão da Costa Brava, apesar de ficar a menos de uma hora de Girona.

Igreja de Sant Martí de Capellada, nos arredores de Besalú
Sant Martí de Capellada, nos arredores de Besalú. Foto: Palauenc05 / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Eguisheim, Alsácia (França)

Eguisheim se organiza em círculos concêntricos ao redor de uma torre central, traçado que, segundo a tradição local, remonta a um castelo erguido por volta do ano 720. O desenho ainda segue a planta original medieval, algo raro mesmo entre cidades preservadas. É a cidade natal de Bruno de Eguisheim-Dagsbourg, nascido em 1002, que se tornaria papa em 1049 com o nome de Leão IX; uma capela neorromânica construída entre 1888 e 1894 guarda relicários associados a ele. As casas em enxaimel (a técnica construtiva com vigas de madeira aparentes, chamada de fachwerk na região) estão entre as mais coloridas da Alsácia, cercadas pelos vinhedos grand cru de Eichberg e Pfersigberg, conhecidos pela produção de Riesling e Gewürztraminer. Em 2013, o público francês elegeu Eguisheim a “aldeia preferida dos franceses”. Fica a poucos minutos de Colmar, mas recebe uma fração dos visitantes; o ideal é chegar antes das 9h30, antes de as excursões lotarem as ruas mais estreitas.

Monteriggioni, Toscana (Itália)

Monteriggioni foi construída pela República de Siena entre 1213 e 1219 para demarcar a fronteira com Florença, sua eterna rival, para a qual acabaria perdendo a independência em 1554, um ano antes da própria Siena. Suas 14 torres dispostas em círculo, ligadas por uma muralha de cerca de 570 metros, são famosas o suficiente para terem sido citadas por Dante n’A Divina Comédia (Canto XXXI do Inferno), que compara os gigantes do poema às torres da cidade vistas de longe. O núcleo murado é pequeno, dá para percorrer a pé em menos de uma hora, o que faz dele um contraponto tranquilo às cidades toscanas mais movimentadas como San Gimignano. Também era parada na Via Francigena, rota de peregrinação medieval a Roma, e fica a cerca de 15 minutos de carro de Siena. Em julho, a Feira Medieval de Monteriggioni recria o cotidiano da época com falcoaria, justas e recriações de batalhas dentro das muralhas.

Třebíč, República Tcheca

Třebíč é um caso raro: seu bairro judeu e a Basílica de São Procópio, erguida no início do século XIII, formam um dos poucos sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO ligados à cultura judaica localizados fora de Israel. Dos 121 edifícios originais do bairro, apenas cinco foram demolidos ao longo do tempo, de modo que a quase totalidade da malha urbana, incluindo sinagogas e passagens estreitas entre as casas, permanece como era há séculos. A Sinagoga Traseira (Zadní synagoga), hoje aberta à visitação, é o principal ponto de referência sobre a vida da comunidade que existiu ali. No cemitério judeu, dividido entre uma seção do século XV e outra do XIX, estão cerca de 4.000 túmulos. A Basílica de São Procópio, com sua cripta românica, é apontada como um dos primeiros exemplos da arquitetura ocidental a influenciar a Europa Central. Juntos, os dois sítios documentam séculos de convivência entre as comunidades judaica e cristã da região, interrompida pelo Holocausto.

Bairro judeu de Třebíč, com a torre da Basílica de São Procópio ao fundo
Bairro judeu de Třebíč, com a torre da Basílica de São Procópio ao fundo. Foto: John Williams / Wikimedia Commons, CC BY 2.0

Visby, Gotland (Suécia)

Visby foi um dos principais portos da Liga Hanseática entre os séculos XII e XIV, o único ponto da ilha de Gotland autorizado a comerciar diretamente com as cidades alemãs depois que mercadores de Lübeck se estabeleceram ali a partir de 1143. A cidade ainda preserva cerca de 3,4 km de muros medievais praticamente completos, reconhecidos pela UNESCO em 1995 como o conjunto urbano comercial fortificado mais bem preservado do norte da Europa. Dentro da cidade murada há mais de 200 edifícios medievais, entre eles as ruínas de mais de dez igrejas góticas que nunca foram reconstruídas após os incêndios que as atingiram ao longo dos séculos, ficando como esqueletos de pedra em meio às ruas. Em agosto, a Medeltidsveckan (Semana Medieval) toma as ruas com mercados e torneios; é também em Visby que acontece, desde 1968, o Almedalen, o principal evento de debate político da Suécia.

Provins, França

A cerca de uma hora e vinte de Paris de trem, partindo da Gare de l’Est, Provins foi sede de uma das maiores feiras comerciais da Europa medieval, atraindo mercadores de tecidos, especiarias e couro entre os séculos XII e XIII, quando chegou a ter cerca de 80.000 habitantes. A Torre César, do século XII, com muralhas de mais de 24 metros de altura, ainda domina a paisagem e oferece vista de toda a cidade murada. Sob as ruas, uma rede de galerias subterrâneas escavadas na rocha, usadas ao longo da história como pedreiras e esconderijo em tempos de guerra, pode ser visitada em passeios guiados de 45 minutos. Provins também é conhecida pela rosa que dá nome à cidade, trazida das Cruzadas em 1240 pelo conde Thibaud IV e cultivada ali desde então. Reconhecida pela UNESCO em 2001, a cidade organiza recriações históricas dessas feiras medievais em datas específicas do ano, uma forma de ver a cidade “em uso”, não só como cenário estático.

Sighișoara, Romênia

Sighișoara é o único núcleo medieval habitado continuamente na Transilvânia, reconhecida pela UNESCO em 1999. Fundada por colonos saxões no século XII, tem nove torres remanescentes (de originalmente 14), cada uma construída e mantida por uma guilda de artesãos diferente, daí nomes como Torre dos Sapateiros ou Torre dos Alfaiates. A Torre do Relógio, erguida em meados do século XIV, abriga desde 1899 um museu de história com peças arqueológicas, mobiliário medieval e armas. É também a cidade natal de Vlad III (Vlad Țepeș), que inspirou o personagem Drácula: a casa onde ele teria nascido em 1431 hoje reúne um restaurante no térreo e um pequeno museu de armas medievais no andar de cima. Em julho, o Festival de Artes e Ofícios Medievais toma a cidadela com música, desfiles de época e artesãos; as ruas de paralelepípedos e as casas coloridas do século XVI ao redor são as originais, não uma reconstituição.

Por que vale sair do roteiro tradicional

Essas sete cidades têm um ponto em comum além da arquitetura preservada: cada uma guarda um detalhe específico (um pedágio medieval, um verso de Dante, uma guilda de artesãos, um cemitério judeu, uma rosa trazida das Cruzadas) que conta uma história particular daquele lugar, e não uma história genérica sobre “a Idade Média europeia”. É esse tipo de detalhe que faz a diferença entre visitar uma cidade bonita e entender por que ela é daquele jeito. Vale notar também que a maioria fica perto de destinos já consagrados, como Girona, Colmar, Siena e Paris, o que torna incluí-las mais uma questão de saber que existem do que de tempo disponível.

Para quem monta o roteiro: Besalú e Eguisheim combinam bem com uma viagem que já passe por Girona ou Colmar; Provins é viável como bate-volta de Paris; Monteriggioni fica a 15 minutos de carro de Siena e pode entrar na mesma tarde de uma visita à cidade. Já Visby (ilha de Gotland) e Sighișoara exigem planejamento à parte: a primeira pede uma balsa de cerca de três horas a partir de Nynäshamn, perto de Estocolmo, e a segunda fica a mais de seis horas de trem direto de Bucareste, mas compensam justamente por receberem bem menos turistas que os destinos vizinhos mais conhecidos.

Como chegar a Besalú e a Třebíč, as duas mais difíceis de encaixar

Besalú não tem estação de trem, então o caminho mais simples é pegar o trem de alta velocidade até Girona, cerca de quarenta minutos partindo de Barcelona Sants, e de lá seguir de ônibus regional ou carro alugado por mais uns trinta e cinco minutos até o vilarejo. Quem estiver de carro pode aproveitar para incluir Girona na mesma parada, já que a cidade também guarda um centro medieval bem preservado. Třebíč, por sua vez, não fica em nenhuma rota direta a partir de Praga: o trajeto mais prático é pegar um trem até Brno, cerca de duas horas e meia desde a capital tcheca, e de lá trocar para um trem regional que leva pouco menos de uma hora até Třebíč. Como as duas cidades exigem essa etapa extra de conexão, vale reservar um dia inteiro só para chegar, visitar com calma e sair, em vez de tentar encaixá-las como parada rápida no meio de outro roteiro. Uma alternativa é dormir em Girona ou em Brno e visitar a cidade vizinha com calma no dia seguinte, sem a pressão de voltar na mesma tarde.