
O Vale do Loire é a região do centro da França, entre Orléans e Angers, onde os reis franceses construíram seus castelos e palácios de lazer entre os séculos XV e XVI. O trecho entre Sully-sur-Loire e Chalonnes, com cerca de 280 km, é patrimônio da UNESCO desde 2000 e concentra mais de cem castelos, a cerca de 1 hora de trem de Paris. Quase todo viajante tem tempo para três ou quatro, e a escolha fica mais fácil quando se entende que eles não são iguais: alguns são fortalezas medievais adaptadas, outros são palácios do Renascimento e outros valem mais pelos jardins do que pelos salões. Abaixo estão os mais bem conservados, com o detalhe que cada um tem e que a maioria dos visitantes deixa passar.
Chambord e a escada que ninguém sabe quem desenhou
Francisco I decidiu construir Chambord depois de voltar da batalha de Marignano, em 1515, e a obra começou em 1519. Era um pavilhão de caça, e o rei passou ali só cerca de 50 dias em toda a vida. Os números mostram o tamanho do capricho: 426 cômodos, 83 escadas e 282 chaminés, e a salamandra, emblema do rei, aparece mais de 300 vezes nos tetos e nas paredes.
O centro do edifício é a escadaria de dupla hélice, em que duas pessoas sobem e descem ao mesmo tempo sem se cruzar. O desenho costuma ser associado a Leonardo da Vinci, que vivia perto dali quando a obra começou, mas não há documento que comprove a autoria. O que pouca gente faz é subir a escada até o fim: ela termina nos terraços do telhado, onde se anda entre as chaminés e as torrinhas, que de perto parecem as ruas de uma pequena cidade.
Em volta do castelo fica o maior parque murado da Europa, com 5.440 hectares cercados por 32 km de muro, uma área do tamanho de Paris. Há mais de 20 km de caminhos abertos ao público, bons para fazer de bicicleta.
Atenção ao preço: desde janeiro de 2026, Chambord cobra mais de quem não mora no Espaço Econômico Europeu. Para brasileiros, o ingresso inteiro custa €31, contra €21 para residentes europeus. Menores de 18 anos não pagam. No verão, o castelo abre das 9h às 18h.
A rivalidade que moldou Chenonceau
Chenonceau é o castelo construído sobre o rio Cher, com uma galeria de arcos que atravessa a água. É chamado de “castelo das damas” porque foi moldado por mulheres. Diane de Poitiers, favorita do rei Henrique II, mandou construir a ponte e um jardim num terraço elevado, com vista para o rio. Depois da morte do rei, em 1559, a viúva, Catarina de Médici, tomou o castelo dela e a obrigou a ficar com Chaumont em troca. Catarina acrescentou a galeria de dois andares sobre a ponte e criou o próprio jardim, de inspiração italiana, do outro lado. Os dois jardins continuam lá, um de frente para o outro.

A história seguiu depois das rainhas. Na Primeira Guerra Mundial, a galeria virou hospital e recebeu mais de 2 mil soldados feridos. Na Segunda, o Cher marcava a linha de demarcação entre a França ocupada e a zona livre, e a galeria serviu de passagem discreta para quem precisava atravessar. Dois cantos que muitos pulam: as cozinhas, instaladas dentro dos pilares da ponte, perto do nível da água, e o quarto de Louise de Lorraine, pintado de preto e decorado com símbolos funerários, onde ela se recolheu depois do assassinato do marido, Henrique III. No jardim, o labirinto tem 2 mil teixos podados e um mirante no centro.
O ingresso adulto custa cerca de €18,50, e o castelo abre todos os dias. É o castelo mais visitado do vale depois de Chambord, então vale chegar na abertura, às 9h na temporada.
Onde Leonardo da Vinci passou os últimos três anos
O Château Royal d’Amboise foi residência de vários reis franceses e fica no alto de uma colina sobre a cidade. Na pequena capela gótica de Saint-Hubert, dentro do castelo, está o túmulo atribuído a Leonardo da Vinci. A 500 metros fica o Clos Lucé, a casa onde Leonardo viveu de 1516 até morrer, em 1519, a convite de Francisco I. O parque tem maquetes em tamanho real de invenções desenhadas por ele, e a tradição local fala de uma passagem subterrânea entre a casa e o castelo, que o rei usaria para visitar o artista.
Os ingressos custam cerca de €16,80 (Amboise) e €19,50 (Clos Lucé). Os dois ficam no centro de Amboise, que tem estação de trem, e cabem na mesma tarde.

Villandry e Chaumont para quem viaja pelos jardins
Os jardins de Villandry são uma reconstrução do início do século XX feita pelo médico espanhol Joachim Carvallo, que comprou o castelo em 1906. Ele recriou 7 hectares de terraços no estilo renascentista, em quatro níveis: a horta ornamental, em que couves e abóboras formam desenhos geométricos; o jardim do amor e o jardim da música; um espelho d’água; e o jardim do sol. São 30 km de bordaduras de buxo e mil tílias, cuidados à mão por dez jardineiros, com tratamento orgânico. Os legumes da horta são colhidos de verdade, e no fim de setembro uma parte é distribuída aos visitantes nas “journées du potager”. Para entender o desenho, suba ao terraço mais alto ou à torre do castelo e olhe de cima. O ingresso sai por cerca de €13,50.
Chaumont-sur-Loire, o castelo que Diane de Poitiers recebeu em troca de Chenonceau, é hoje um centro de arte e de paisagismo. Todo ano, de abril a outubro, ele recebe o Festival Internacional de Jardins, com projetos de paisagistas de vários países (ingresso de cerca de €20,50).

Blois e quatro séculos de arquitetura no mesmo pátio
O castelo de Blois resume a história da arquitetura francesa num só pátio. Cada ala é de uma época: gótica (século XIII), gótica tardia (Luís XII), renascentista (Francisco I, com a famosa escadaria em espiral aberta) e clássica (século XVII). Foi ali que o duque de Guise foi assassinado por ordem do rei Henrique III, em 1588.
A sala que mais desperta curiosidade é o gabinete de Catarina de Médici, com 237 pequenos armários escondidos nos painéis de madeira. A lenda de que ela guardava venenos ali vem em boa parte do romance A Rainha Margot, de Alexandre Dumas. Os historiadores acham mais provável que os armários guardassem papéis e pequenos objetos de valor. Em frente ao castelo fica a Maison de la Magie, museu dedicado ao mágico Robert-Houdin, nascido em Blois, de onde dragões saem pelas janelas da fachada em horários marcados. O castelo fica a 10 minutos a pé da estação de Blois.


Tours ou Blois como base sem carro
Do Brasil, a porta de entrada é Paris, com voos diretos de São Paulo e do Rio em cerca de 11 horas. Há duas bases práticas:
- Tours: o TGV sai de Paris-Montparnasse e chega à estação de Saint-Pierre-des-Corps em cerca de 1 hora. De Tours há trens regionais para Amboise e Chenonceaux, e Villandry fica a 15 km.
- Blois: fica a cerca de 1h30 de Paris-Austerlitz. Na temporada, um ônibus regional faz a ligação até Chambord.
Os escritórios de turismo vendem passes que combinam três ou quatro castelos com transporte. Quem gosta de pedalar pode usar a ciclovia Loire à Vélo, plana e sinalizada, que liga a maioria dos castelos.

Cada estação favorece um castelo diferente
De abril a junho, os jardins de Villandry, Chenonceau e Chaumont estão no auge e as filas ainda são administráveis. Em julho e agosto, coincidindo com as férias brasileiras, há espetáculos noturnos de luz e som em alguns castelos, como Blois, mas também as maiores filas. Setembro e outubro trazem a colheita nos vinhedos de Vouvray e Chinon e as journées du potager de Villandry. No inverno, Chambord e Chenonceau abrem com decoração de Natal, mas alguns castelos menores fecham.
Quanto se gasta em ingressos em três dias saindo de Tours
Com base em Tours e sem carro, dá para ver os cinco perfis de castelo deste guia em três dias. A tabela soma só os ingressos, que costumam ser o maior gasto depois da hospedagem:
| Dia | O que ver | Como chegar | Ingressos | Em reais (aprox.) |
|---|---|---|---|---|
| 1 | Chenonceau na abertura; à tarde, Castelo de Amboise e Clos Lucé | Trem regional de Tours; as duas cidades ficam em linhas diferentes, então a volta passa por Tours | €54,80 | R$ 321 |
| 2 | Chambord; no fim do dia, o castelo de Blois | Trem até Blois e ônibus regional para Chambord (só na temporada) | €31 (Chambord) | R$ 182, mais Blois |
| 3 | Jardins de Villandry | 15 km de Tours, uma boa distância para fazer de bicicleta pela Loire à Vélo | €13,50 | R$ 79 |
| Total | Sem Blois, transporte e hospedagem | €99,30 | R$ 582 | |
Dois detalhes mudam a conta. Desde 2026, Chambord cobra €31 de quem não mora no Espaço Econômico Europeu, contra €21 dos residentes, e menores de 18 anos não pagam. E, entre abril e outubro, vale trocar Villandry pelo Festival Internacional de Jardins de Chaumont (cerca de €20,50, ou R$ 120) se o interesse for paisagismo contemporâneo.
Fontes
- Domaine National de Chambord: Horaires et tarifs
- France 3 Centre-Val de Loire: Chambord aumenta tarifas para visitantes de fora da Europa em 2026
- Office de Tourisme Autour de Chenonceaux: Billets châteaux
- UNESCO: The Loire Valley between Sully-sur-Loire and Chalonnes
- France.fr: 9 choses à savoir sur le château de Chambord
- Generation Voyage: Visiter le château de Chenonceau
- France.fr: Dans le secret des jardins de Villandry
- Atlas Obscura: Catherine de Medici’s Chamber of Secrets
Preços de referência revisados em outubro de 2026. Alguns foram tirados da bilheteria do escritório de turismo, que pode ter descontos. Confirme no site de cada castelo.
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Helena Nascimento é formada em História e mora no interior de São Paulo, em uma cidade turística. No lunova3, pesquisa a história de vilarejos, castelos e tradições da Europa e organiza guias em português para quem está planejando uma viagem, com fontes oficiais citadas e dados conferidos.